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12 de outubro de 2012

Virei modelo (de novo)

Eu tava toda tranquila na biblioteca da faculdade, fazendo uma saudável quantidade de nada enquanto esperava pra conversar com um professor. Acontece que a semana de moda vai começar em breve e eu, como contribuinte do blog da faculdade (legal, né?), posso escolher um desfile dos chiques pra ir, patrocinada pela instituição. O problema é que são tantas opções que eu achei melhor pedir a opinião de um profissional antes de escolher. Resolvi esperar pra falar com um dos meus professores.

Ele finalmente chegou na biblioteca, conversou comigo rapidinho sobre as melhores opções de desfiles e já tinha passado a porta pra ir embora de volta pra sala de aula quando parou no meio do caminho, virou e voltou. 

- Você vai andar no desfile da escola esse final de semana? - ele perguntou enquanto me olhava de cima a baixo (coisa normal nesse mundo de moda, acho que posso dizer que acostumei).

- Não que eu saiba - respondi, já decodificando o que estava acontecendo ali - Eu vou no desfile pra fotografar e depois escrever um texto pro blog da faculdade, mas... - (nisso ele já tava segurando o meu braço e me levando pra experimentar as roupas). 

- Vai desfilar então - ele finalizou confiante e eu tive que rir.

Experimentei as roupas, recebi elogios e pensei "ah, dane-se, pelo menos vou ter uma segunda chance de andar numa passarela em vez de correr como fiz da última vez". Coloquei meu nome na lista e pronto, virei modelo de novo. 

Hoje foi o ensaio e sábado é o evento. 

Cheguei lá toda psicologicamente preparada pra ser a mais anã de todas e passar as próximas semanas questionando toda a minha existência vertical. Qual não foi a minha surpresa em constatar que as meninas tinham a mesma altura que eu? Choque, claro. Ano passado eu tava no nível do umbigo das modelos e esse ano tô conseguindo ver rostos. Ótimo! Até aí o saldo tava positivo.

Bastou um pouquinho de conversas introdutórias, porém, pra eu descobrir que as modelos ao meu redor eram todas (t-o-d-a-s) mais novas que eu. "Ai, então, sou da Europa e tô no primeiro ano do Ensino Médio aqui". Oi? "Que legal, eu tenho 14 anos",  "Eu tenho 17, mas todo mundo diz que eu pareço mais nova".

Gente, cada vez que uma menina falava a idade aparecia uma ruga nova na minha cara. Nada como uma boa dose de modelos iniciantes pra fazer com que uma pessoa de vinte e dois anos se sinta como material arqueológico. Esqueci totalmente da "vantagem" em ser da mesma altura que as modelos quando percebi que tinha uma corcunda de velhice crescendo nas minhas costas.


Nos dirigimos à passarela e treinamos o ~andar~ (não que eu precisasse treinar alguma coisa porque todos aqui sabemos que já sou expert no assunto). O que eu tenho que admitir é que com os meus problemas de idade e tudo, eu tava meio preocupada que a pressão fosse cair ou a diabete atacar, sabem? Previ até uma crise osteoporótica no meio do negócio mas nada aconteceu, ufa. 

Agora só esperar até o dia do desfile! Como ano passado eu deixei uma imagem meramente ilustrativa da fila de modelos, vou deixar vocês com a de hoje:


Vale dizer que apesar de idosa, minha pele estava bem mais bonita e sem espinhas que a delas. Algum benefício a idade avançada tinha que trazer.

6 de setembro de 2012

O dia em que eu entrevistei o Serginho Groisman

GENTE. Quando eu mandei meu contato pra organização do Brazilian Day, evento anual aqui em Toronto, não botei muita fé de que eu conseguiria de fato conhecer o Serginho Groisman e de quebra ainda entrevistá-lo para o meu canal do Youtube

Eu sempre acabo participando dos chamados "street festivals" aqui no Canadá porque eles costumam ser bem divertidos. Dessa vez, eu sabia que encontraria comida gostosa, gente falando português e um ou outro rosto conhecido no palco, mas achei que não perderia nada ao tentar chegar um pouco mais perto. E não é que consegui? 



Recebi um convite pra participar da coletiva de imprensa e, ao chegar lá (atrasada e quase morrendo porque nunca tem trânsito mas no dia que eu preciso ser pontual, o trânsito resolve dar uma sacaneadinha na vida), descobri que eu tinha um crachá de media e que seria VIP durante o evento todo (= acesso aos bastidores liberado!).



Entrei na sala da coletiva toda metida porque oi, sou da mídia, mas na mesmíssima hora que cheguei já me deu um friozinho na barriga de ver todas aquelas câmeras chiquetosas e microfones com o logotipo da Globo. Minha idéia era bater o maior papo com o Serginho Groisman e perguntar trezentas mil coisas, mas primeiro que outro povo que tava lá só fazia pergunta pra dupla Jorge e Mateus (que eu só fiquei conhecendo direito depois desse dia) e segundo que a minha pergunta principal não tinha nada a ver com os assuntos que estavam sendo conversados. E o Serginho lá quieto, me dando umas olhadas de vez em quando (talvez por causa do sinal de neon em cima da minha cabeça dizendo QUERO FALAR COM VOCÊ).



A parte das entrevistas "oficiais" acabou e eu muito determinada a conversar com um dos maiores apresentadores da TV brasileira, andei diretamente à bancada e fiquei lá esperando pra conversar um pouco com Sr. Groisman. Quando minha vez chegou, eu primeiro disse que meus pais já tinham trabalhado com ele (tá feliz, mãe? Ele não lembrou - risos), expliquei que tenho um canal do Youtube e perguntei minha super pergunta.

"O que você acha de gente que produz conteúdo para o Youtube?" 

Ele disse que acha ótimo e citou o fato de que hoje em dia muitas pessoas saem do Youtube para apresentar programas na TV, por exemplo, ou para seguir uma carreira musical. Ele também acrescentou que o Youtube é um meio mais direto para uma pessoa se expressar, e isso é, sem dúvida, uma verdade muito grande. Qualquer pessoa com uma câmera e uma conexão de Internet pode produzir conteúdo pra lá, se quiser! "Essa é uma pergunta difícil, mas o importante no Youtube, eu acho, é a sua performance e a sua qualidade", Serginho disse. Apoiado. Sempre me preocupei com isso e me considero uma boa vlogger por isso. Acima de tudo, gosto de fazer vídeos - é divertido pra mim e a resposta das pessoas que assistem é muito legal. Saber que o Serginho Groisman, uma pessoa de tanta experiência na mídia, respeita esse novo jeito de produzir conteúdo é algo bem gratificante. 

Ao decorrer do dia, como eu tinha o tal VIP, encontrei com ele mais algumas vezes e tive chance de conversar um pouco mais. Ele é muito gente boa, tirou foto com todo mundo que pediu (mais ou menos umas todas as pessoas presentes), super acessível. 


Quanto aos senhores Jorge e Mateus, também pareceram bem humildes e deram bastante atenção às fãs enlouquecidas. Ainda não sei exatamente o quão famosos eles são aí no Brasil, mas o povo aqui tava bem louco pra ver a dupla. 




E aqui está o vídeo que eu fiz sobre o evento todo! 

24 de agosto de 2012

O mundo contemporâneo da paquera

Entrei no Tim Hortons sabendo que ficaria no restaurante durante bastante tempo uma vez que meu intervalo era de quase três horas. O que eu não sabia era que sairia de lá acompanhada. 

Pedi meu sanduíche favorito e o clássico chocolate quente que tanto me apetece. Sentei. Como o chocolate vem quente mesmo, sempre abro a tampa do copo pro negócio esfriar logo e eu não queimar meu bico (o que sempre acontece independentemente dos meus esforços). Eu tava na metade do sanduíche quando um cara apareceu na frente da minha mesa e pediu pra sentar-se comigo. Olhei  ao redor achando que o pedido era só desculpa pra começar conversa fiada, mas o restaurante tava realmente cheio. Disse que tudo bem e ele sentou. 

Olhei direito pra cara do cidadão e, apesar dele estar sorrindo e ter um cabelo extremamente limpo, me veio aquele sentimento meio desesperador de "esse cara tem jeitinho de louco, socorro". Ao lembrar de que estávamos num lugar público e que a coisa mais homicida que ele poderia fazer naquela situação seria me tacar um café na cara, concluí que não seria assassinada imediatamente e mantive a calma.

Ele olhou pro meu chocolate quente e perguntou: "- Não gosta de café?" 
"- Não, café não tem efeito nenhum em mim", respondi honestamente.

Ele fez cara de choque e eu de "pois é, e daí?". Foi então que ele disse com olhar de sedução "- Até o fim dessa conversa, você vai ter mudado sua opinião sobre café". Pior é que não posso nem dizer que ele tava errado, vai lendo. 

- Café me dá energia, teve um dia que eu tomei um tanto e saí correndo na rua de madrugada. Aquele dia corri mais de doze quilômetros - ele disse, orgulhoso. E quem não quer sentir vontade de correr 12km no meio da noite? 
- É, pra mim não faz efeito - e continuei comendo. 

"Que papo", pensei. "Mulheres solteiras em tudo quanto é canto devorando revistas e sites com 'dicas pra primeiros encontros' sendo que primeiros encontros são isso". Cheguei à conclusão de que não só seria completamente honesta sobre tudo que ele me perguntasse, como também perguntaria tudo que me viesse na cabeça. Sem filtro e sem seguir as top setecentas mil dicas de primeiro encontro. 

- De onde você é? - ele perguntou.
- Originalmente, do Brasil - respondi interessada na reação.
- Sério? Pensando bem faz sentido. Todas as mulheres brasileiras que eu já conheci me passam essa sensação de calma, de paz. Conversam normalmente, sem querer me ofender. Outro dia, a mulher mais bonita que eu já vi na minha vida passou perto de mim na rua. Ela tava com uma amiga mas mesmo assim eu fui atrás pra falar oi, sabe? Nossa, não sei o que aconteceu mas a amiga começou a me xingar e dizer que eu era ridículo. Eu xinguei também e virou aquela coisa. Horrível.

Sem querer necessariamente confirmar meu preconceito contra a população jovem do universo, perguntei a idade dele (25) e o que fazia da vida (nada). "- Seus pais te bancam, então?", perguntei. Ele disse que não, que tinha juntado dinheiro do trabalho anterior. A conversa foi indo desse jeito meio travado (não cooperei nem um pouco) e de repente meu celular tocou. Eu atendi e ele colocou um par de óculos de natação na cara. 

tipo isso
Quando eu desliguei, não precisei perguntar. "- É moda nos Estados Unidos. Os caras saem com os óculos assim meio de lado (colocou os óculos de lado) e uma touca de mano. Estilo, né?" (não) "- Bom, vou te comprar um café", ele disse já se levantando. Mesmo depois de, no começo da conversa, eu ter explicado que Brasil é o país do café, que cresci vendo meu vô tomar COPOS de café preto diariamente, que eu já até tentei me fazer gostar do troço. Acho que eu poderia ter dito pra ele que eu trabalhei na senzala colhendo e mastigando sementes de café e ele ainda estaria me oferecendo o do Tim Hortons, porque "o café do Tim Hortons é melhor".

Voltou com um copo de café com leite (sim, todo esse tempo ele tava falando de café com leite). Esqueci de agradecer e quando percebi ele tava com o olho cheio de lágrima me contando sobre a ex-namorada. Era peituda e sempre parecia querer liberdade. "- Quando eu estou num relacionamento, costumo ser meio... intenso", ele disse.

Pausa pra dica de semântica do dia: se um cara fala que é "intenso" referindo-se à um relacionamento, ele tá usando código pra dizer que é louco mas acha que tudo bem ser louco porque te ama tanto que melhor você ficar acorrentada no pé da cama enquanto ele sai pra comprar leite. Corre.

Eu perguntei como o namoro tinha terminado e ele contou que não lembrava direito (sei) mas achava que tinha dito umas coisas ofensivas pra menina por telefone "- ou talvez tenha sido num shopping", porque ela queria sair com as amigas e ele queria que ela ficasse com ele naquele dia. Normalzíssimo.

- Sabe, eu tenho poderes psíquicos. Sei exatamente como será o seu futuro - ele disse - Posso te dizer o que eu acho?
- Diz.

Ele disse que eu tenho potencial para uma vida com muito dinheiro se eu tiver coragem de "ousar", mas que se não, viverei confortavelmente. Começou a falar sobre minha criatividade e mais um monte de coisa que me deixou meio assim porque como ele sabe que eu gosto da área criativa da vida? Tive que perguntar.

- O jeito que você mexe as mãos é jeito de gente criativa, o que é interessante porque eu sou assim também.

Uma das maiores observações sobre essa conversa inteira foi que eu realmente não falei quase nada pra ele sobre mim. Sabe aquele mito de que mulher fala demais e homem só ouve "bla bla bla comida bla bla peitos"? A única vez que eu ameacei começar a falar alguma coisa sobre a minha vida/opinião foi nessa hora - e ele me interrompeu dizendo que precisava ir ao banheiro.

Fiquei sentada lá, observando a chuva forte que tinha começado a cair e pensando que ainda faltava um tempão pro meu intervalo acabar. "Como eu vou me livrar desse cara, agora?!".

Ele voltou meio (mais) esquisito e proclamou o seguinte enigma: "- Quase tive que fazer xixi com as mãos nas costas".

Não entendi o que ele quis dizer com aquilo e, inocente demais pra minha própria saúde mental, perguntei: "- Como assim?!"

- Sabe como é, faz muito tempo que eu não tenho uma mulher. Estou meio... sensível.

O meu estado de incredulidade ao finalmente entender que ele se referia ao próprio pênis é indescritível.  Tipo, OI? Estamos conversando há meia hora, você previu o meu futuro e agora está me falando sobre a sua dinâmica urinal prejudicada por motivos homo eretus? Por favor né.

BOM. O ocorrido tirou minha concentração no processo de inventar um motivo pra sair de lá e, quando  o momento de choque passou, eu ainda não tinha conseguido pensar em nenhuma desculpa pra ir embora. Aí lembrei que o meu salão de cabelereiro favorito era perto de onde eu estava, e se tem uma coisa que homem não tem interesse nenhum é passar horas em salão de beleza, certo? Errado. Na hora em que eu mencionei as palavras salão, ir, cabelo e fazer, a resposta dele foi nada mais, nada menos que "- Adoro salão de beleza". Pediu pelo meu celular, ligou pra um salão do amigo dele e pediu pra marcar um horário pra mim. Quase gritei que não, obrigada e disse que iria no meu mesmo.

- Posso te acompanhar?
- ... pode, respondi. Ia falar o quê?

Andamos um pouco (ainda estava chovendo e ele não só insistiu em segurar o guarda-chuva pra nós dois como também começou a cantar N'sync no meio caminho). No fim eu, sempre perdida, acabei levando a gente de volta pro lugar onde eu estava trabalhando e, como ele não poderia entrar lá, acabou que constrangedora hora de dar tchau chegou prematuramente.

Gente, sério: melhor parte da história. Tão preparados?

Ok. Todo mundo sabe que nesse mundo de tecnologia avançando, a comunicação entre seres humanos muda um pouco mais a cada dia. Mas quem diria que o milenar truque do número de telefone errado um dia seria derrotado?! Pois é, descobri que foi.

Ele pediu meu número. Cogitei dar o número errado, mas como eu tava encarando o evento inteiro mais como um experimento como qualquer outra coisa, pensei que não faria diferença e que na verdade seria interessante esperar pra ver se ele realmente me ligaria ou não. Dei o número certo. EIS a nova técnica distraída de verificação telefônica: ele colocou o número no celular dele, olhou pra mim e falou "- Te mandei uma mensagem, você recebeu?". Eu disse que sim e ele rebateu no mesmo segundo: "- O que diz a mensagem?"

NÃO É INACREDITÁVEL?!

E se eu tivesse dado o número errado mesmo? Quão constrangedor teria sido não saber responder uma pergunta tão simples?! Além de ser pega no flagra, ainda teria que me explicar na mentira!

err...
Boquiaberta com a inesperada esperteza do indivíduo, li a mensagem que ele tinha me mandado em voz alta. Ele sorriu, disse que me enviaria outra logo e eu entrei no prédio, ainda sem acreditar na nova técnica do mundo contemporâneo da paquera.

25 de maio de 2012

Coisas chatas sobre transporte público

Correr pra pegar o ônibus

Você se descabela correndo como se não houvesse amanhã porque acha que o veículo está pra fechar as portas e te deixar pra trás e, quando finalmente entra no ônibus se achando a verdadeira Tomb Raider do transporte público, ele fica com as portas abertas por mais dez minutos e você lá.

Gente que fica parada na escada rolante

Você está naquele mesmo clima de pressa do item anterior, sabe que cada degrau a menos é determinante e tem certeza que o metrô só vai esperar mais trinta segundos. Desce três degraus da escada rolante e se depara com o velhote que em vez de descer preferiu ficar parado no MEIO do degrau observando a paisagem, bloqueando todos atrás dele e portanto te atrasando num valor de pelo menos sete degraus.

(o sentimento)
A porta do trem não pára na sua frente

O metrô finalmente chega e, por algum motivo que não faz sentido uma vez que você terá que andar pra entrar no transporte público de qualquer jeito, você quer que a porta coincida com seu posicionamento. Nunca acontece.

Tem cadeira livre e ninguém senta

É como se fosse obrigação sofrer o sacodimento em pé. Fica uma tensão porque todo mundo quer sentar mas ninguém tem coragem. Obviamente, todas as pessoas que precisam sentar (grávidas, idosos etc) já estão acomodadas e aquele lugar está l-i-v-r-e. Todo mundo se olha e continua em pé se sentindo ótima gente pelo sacrifício.

Pessoa atrapalha sua paz pra sentar e tem que levantar duas paradas depois

Já costumo sentar na cadeira longe da janela pra dificultar e desmotivar as pessoas a sentarem do meu lado. Normalmente funciona. Vem a dona cheia de sacolas, bolsas, filhos e comidas indianas e faz aquela cara de "vou sentar do seu lado". Me cotovela trinta mil vezes até conseguir sentar (mudo minha posição só o suficiente pra fingir que me importo em ajudar, mas na verdade não mudo nada. Sou ruim mesmo - gente sem noção espacial tem que sofrer nem que pra isso eu tenha que sofrer junto) e senta. DUAS PARADAS DEPOIS, a mulher me olha com cara de "tenho que sair" e levanta pra sair, passando pelo mesmo processo de agonia de novo. Merece ou não merece um chute na bunda pra aumentar a inércia enquanto o ônibus pára? Merece.


Que mais?

20 de abril de 2012

A velha sem calcinha

Era o intervalo da aula e eu decidi ir até o mercado próximo ao prédio em que eu estudo comprar alguma coisa pra comer. Se eu tivesse ficado um minuto extra escolhendo a salada, não teria passado pelo que vou contar pra vocês.

O caminho de volta é curto, então quase que imediatamente após minha inocente saída do mercado, eu avistei a cena que em breve se tornaria parte da minha vida. Primeiro senti angústia, depois uma fisgada na minha veia cômica e logo em seguida, empatia com uma pitada de dó. A conclusão de todos esses sentimentos foi pura e simples: "se eu começar a olhar para o chão nesse exato momento, me tornarei invísivel e sairei intacta". Ledo engano.

Tratava-se de uma velhinha de cabeça branca e sobrancelha pintada de azul parada na frente da porta do prédio da faculdade que, naquele momento, representava apenas uma memória do mundo como eu o conhecia antes. A velhota tava claramente perturbada e parecia prestes a chorar. O motivo do desespero não ficou claro até que cheguei perto o suficiente para ver que, enroscada nos tornozelos ligeiramente fósseis dela, estava uma calcinha.

Horror. Comecei a suar frio porque a velha olhava pra mim com a mão estendida em pedido de ajuda e eu não simplesmente não tinha como fugir. "Quanto tempo será que ela já está andando com essa tenda de circo enrolada nas pernas, como é possível uma calcinha simplesmente cair da bunda de uma pessoa, será que eu estou pronta pra ver qualquer tipo de conteúdo que esse pedaço de pano malígno possa conter, se eu não parar pra ajudar quanto tempo será que essa velha ainda tem DE VIDA pra esperar por uma pessoa melhor que eu, por que diabo eu simplesmente não trouxe alguma coisa pra comer de casa" - pequeno exemplo das novecentas mil coisas que se passaram pela minha cabeça. Nisso, a velhinha já tava me explicando o que tinha acontecido há algum tempo e eu não tinha ouvido nem uma palavra depois do "help". Basicamente, ela estava andando e a calcinha caiu (!).

Abaixei. Segurei a calcinha branca (ufa, pelo menos não era amarela cor de bexiga não funciona há quinze anos) e olhei pra cima: "A senhora quer que eu tire ou puxe pra cima?", perguntei idiotamente porque ninguém me faria puxar aquele prévia de inferno pra cima. "Tira, por favor", ela respondeu se apoiando nas minhas costas. Contando essa história aqui eu ainda não consigo acreditar que realmente parei para resolver uma situação desse nível. O estado de nó em que aquela coisa se encontrava não dá pra ser explicado cientificamente e o motivo de eu estar de joelhos no meio da rua tentando ajudar devia ser desenhado na parede de alguma caverna pra ver se as civilizações futuras conseguem entender.

Tirei a calcinha da velha guiando os pés dela pra fora do nó enquanto ela se segurava em mim e o Apocalipse começava ao nosso redor. O esforço para não demonstrar muito radicalmente o repúdio que eu sentia por estar segurando propriedade íntima de uma velhinha aleatória foi grande, mas entreguei a calcinha  de volta pra ela com o melhor sorriso de compreensão que consegui projetar. Ela sorriu de volta constrangida e me agradeceu, se preparando para voltar a caminhar sabe-se lá pra onde.

Sem calcinha.

eu tirei a calcinha de uma velha no meio da rua

27 de março de 2012

O louco do Tim Hortons

O Canadá tem uma versão canadense do Starbucks que se chama Tim Hortons. Os principais produtos são café, chocolate quente, donuts e muffins - mas as opções em si vão de sanduíches naturais a lasanhas. Além do cardápio, a grande diferença entre o Tim Hortons e o Starbucks é preço. Tim Hortons é agressivamente mais barato que Starbucks e vocês sabem o que isso significa: quanto mais barato mais gente louca (lembram do episódio do McDonald's?).

Bom. Eu já estava sentada e comendo (e queimando a língua com o chocolate quente como SEMPRE faço) quando percebi que a música alta nos meus fones não estava sendo suficiente para me ensurdecer completamente do mundo. "Tem alguém gritando", concluí. Tirei os fones e olhei em volta. Todos na fila estavam virados pra direções diferentes, ou olhando pro chão ou concentrados demais em seus respectivos celulares. "O que será que esse povo tá se esforçando tanto pra igno.."

- Vou ACABAR com o cérebro dele!!

"Ok, o negócio já tá nesse nível", pensei enquanto me situava, tentando entender se era briga, se era conversa pelo telefone (sempre adiciono essa possibilidade depois da louca do trem) ou se o cara tava mesmo falando sozinho.

- Como se tivesse algum cérebro lá pra destruir né... - ele estava falando sozinho - POR QUE ESSES DESGRAÇADOS NÃO CRESCEM? NÃO AGUENTO MAIS ISSO!! - e xingava. Muito.

Peguei meu caderno discretamente, me movimentando na mesma velocidade que seria necessária caso eu estivesse fantasiada de bife mal passado na frente com um leão africano que come há três semanas (também aprendi com o episódio do trem que não se pode deixar transparecer para pessoas loucas quaisquer sinais de que acho que são loucas). Comecei a anotar o monólogo para ter certeza de que não esqueceria dos detalhes.

- Não mais aguentar merda de NINGUÉM! ESPECIALMENTE DE GENTE SEM CONTROLE!!! (mencionei o fato de que ele tava gritando sozinho no meio de um restaurante cheio, né? risos)

Olha. Ele continuou xingando até a vez dele na fila chegar. Eu tentei mas não consegui descobrir do que exatamente ele tava reclamando. Ele comprou "menor café que você tem aí, dona" e foi embora em silêncio.



Gente sem controle é mesmo um problema né, seu moço? Beijos!

20 de fevereiro de 2012

Fiquei presa no banheiro

Eu estava sozinha no lugar e mesmo assim tranquei todas as portas, só pra ter certeza que ninguém entraria. O banheiro era no andar de baixo, mas eu fiz questão de fechar a porta lá também. Resolvi minhas necessidades fisiológicas rapidamente, lavei as mãos e tentei abrir a porta.

Não abriu. Empurrei com mais força e nada. Mexi na fechadura agressivamente "tenho certeza de que não tranquei essa porta" e NADA. A porta era de madeira e parecia velha "vou ser obrigada a quebrar esse portal entre minha existência e o resto do universo no chute", pensei, prendendo o cabelo estilo pronto-pra-guerra. "Vou quebrar essa merda e vai ser agora" - doce ilusão hollywoodiana. 

Chutei, cotovelei, me joguei contra a porta, chutei gritando, chutei quase chorando. N-A-D-A aconteceu. Cada vez que eu chutava aquela porta a realidade de que eu passaria o resto da minha vida no banheiro se aproximava mais.

Olhava pra todos os lados esperando ver aquele boneco desgracento dos Jogos Mortais, na bicicletinha: "Olá Cintia. Para sair desse banheiro você vai precisar cortar uma perna. Let the games begin". Pensei em ligar pra alguém e pedir ajuda mas - além de todas as portas estarem trancadas, eu não estava psicologicamente preparada para ligar pra qualquer pessoa porque eu estava presa no banheiro. Meu nível de auto-estima simplesmente não era alto o suficiente pra suportar aquilo (continua não sendo).

Chutei a porta mais umas quinze vezes antes de finalmente tentar mexer na fechadura de novo. A lateral do meu braço, a essa altura, já estava completamente vermelha e dolorida, e o meu cabelo fora de controle. Ter um espelho por perto nessas situações de desespero é humor negro, diga-se de passagem.

BOM, mexi na fechadura. Pra cima, pra baixo, pros lados. Se aquilo não funcionasse, minhas opções estariam zeradas e a vida terminaria no chão de um deprimente banheiro de porta velha de madeira inquebrável. Clique, abriu.

"MANO EU NÃO TRANQUEI ESSA PORTA, ISSO NÃO FAZ SENTIDO", gritei mentalmente porque já tinha feito barulho demais chutando a porta que em momento algum havia sido trancada.

Fiquei parada na frente do banheiro por alguns minutos, apreciando minha recém re-adquirida liberdade de ir e vir. A felicidade de não ter precisado cortar uma perna antes de descobrir que a porta só precisava de mais insistência pra ser destrancada foi grande. Pior do que ter que explicar pros bombeiros que não tive capacidade de abrir a porta de um banheiro seria explicar pros bombeiros que cortei uma parte do meu corpo porque achei que isso faria o Jigsaw abrir a porta do banheiro pra mim.



28 de janeiro de 2012

Homens e absorventes

Pedir pra homem comprar absorvente é sempre um risco. Mas eu não tinha escolha.

Expliquei que queria o noturno, com abas e de cobertura suave e, em resposta ao olhar de desespero na cara dele, disse que todas as informações estariam listadas no pacote. Ele foi.

Voltou com uma marca que eu nunca tinha ouvido falar mas, pelo menos, tinha conseguido achar quase todas as características que eu precisava. Ele trouxe tamanho regular em vez de noturno. "Tudo bem", pensei "servem para o propósito imediato".

Me arrumei ainda no banheiro, olhando pro pacote de absorventes e imaginando qual seria o nível equivalente de constrangimento caso a situação fosse invertida e eu tivesse que ir comprar alguma coisa "masculina". Não cheguei à nenhuma conclusão mas sim à uma dúvida: das três características que eu havia pedido, "tamanho noturno" era provavelmente a mais fácil de encontrar - por que será que foi a única coisa que ele não achou?



Saí do banheiro e tive que perguntar:

- Por que você não comprou o absorvente noturno? Não tinha?

Ele olhou pra mim, constrangido.

- Eu só vi tipos que diziam "extra-longo" e... 
- E o quê? Extra-longo é o certo, é só outro jeito de dizer!
- Não sei, eu vi o extra-longo mas achei que seria um insulto comprar qualquer coisa "extra-longa" pra... aquela área

...

Risos.



11 de janeiro de 2012

Os homens e a (falta de) praticidade

Estávamos na rua por horas e eu, como sempre, sentia a fome dominando meu ser.

Eu - Af, que fome.
Ele - Tem um supermercado aqui perto, a gente pode parar lá pra comprar alguma coisa.
Eu - Ufa, tá bom.

Chegamos no supermercado e eu fiquei no carro esperando (motivo desconhecido). Ele saiu sem perguntar nada mas, pela convicção, achei que ele sabia exatamente o que compraria. Até aquele momento, eu nem tinha pensado no que queria comer. Eu sabia que precisava ser prático, uma vez que ainda tínhamos que ir à pelo menos mais dois lugares e portanto teríamos que comer no carro. "Confio no bom senso dele", pensei, tentando superar um estranho sentimento de que eu devia ter entrado no supermercado em vez de ficar esperando no carro. 

E aí ele voltou, todo feliz e sorridente. Trazia uma sacola e uma caixa. 

Na sacola tinha dois litros de suco e na caixa tinha metade de um frango assado.  

Pra comer no carro. Sem garfo. Sem guardanapo.



Homens.

27 de dezembro de 2011

A terrível história sobre o bolo de Natal

Meu primeiro fim de ano longe de casa. Até a semana passada eu não tinha planos específicos para o dia de Natal, mas já desconfiava que a família do meu namorado nos convidaria para ir lá. Quando recebemos o convite, eu já estava psicologicamente preparada, com roupa planejada e tudo. Mas as palavras na mensagem que nos enviaram me fizeram lembrar que não seria uma daquelas ocasiões em que apenas se vai. O primo nos escreveu: "Venham jantar na nossa casa dia 25 e não tragam nada além da presença de vocês!" Obviamente eu teria que levar alguma coisa.

Comecei a pensar em algo natalino pra levar, mas pelo que eu tinha ouvido, Natal por aqui é basicamente constituído de peru - e olha a minha cara de quem prepara peru, né Brasil? Olha minha cara de quem sequer se ofereceria para cozinhar o prato principal da noite de uma família que nem é a minha - abraço. Resolvi então fazer um bolo de chocolate porque afinal, sobremesa nunca é demais (e também porque queria mostrar que meu país não é só feito de carnaval e futebol: também temos receitas de bolos).

A partir do momento em que decidi que faria um bolo pra levar, decidi que faria dois. Um de teste durante a semana e um oficial no dia do jantar. Nunca tinha usado aquela receita e eu precisava ter certeza de que tudo seria perfeito. Sim. O bolo havia deixado de ser apenas uma sobremesa e passado a ser questão de honra. 

Comprei todos os ingredientes na quinta-feira e fiz o teste na sexta de manhã. Além de lindo, o gosto do bolo ficou exatamente como eu queria. Por um milésimo de segundo, o aterrorizante pensamento passou pela minha cabeça: tamanho nível de perfeição seria difícil de alcançar duas vezes consecutivas. Respirei fundo.

foto real, não apenas ilustrativa 
Acordei cedo no domingo e comecei a saga. Preparei a massa direitinho enquanto o forno pré-aquecia e untei a forma especialmente comprada para a ocasião. Lembrando que era dia 25 e portanto, se alguma coisa desse errado, a chance de achar um lugar aberto pra recomprar coisas seria mínima. Pressão. Coloquei a massa para assar e tudo corria bem. 

Quarenta minutos depois, a massa tinha crescido lindamente e já estava fora do forno para esfriar. Era hora de fazer a calda de chocolate para a cobertura. 

Antes de continuar essa história, eu preciso proteger minha reputação e deixar registrado que desde que comecei a cozinhar a única coisa que eu já errei foi ponto de chocolate. A única.

Coloquei todos os ingredientes na panela conforme as instruções, e comecei a mexer. Mexi por muito mais tempo do que precisei mexer na vez teste e a calda não engrossava. Pouco a pouco, o desespero começou a me dominar. Enquanto mexia, olhava em volta para ver se tinha chocolate suficiente para começar tudo de novo caso precisasse. Aumentei o fogo e continuei mexendo. A calda foi ficando cada vez mais escura e eu senti um frio na espinha que não me era desconhecido. Abaixei o fogo imediatamente, me sentindo em luto. Tentar evitar a realidade não me traria benefício algum. Tirei a panela do fogo e experimentei o que hoje em dia sei que é o gosto da minha derrota: o chocolate estava queimado. 

Joguei tudo pela privada, lavei os utensílios e comecei de novo. Mexi por mais uma eternidade e nada de engrossar. Adicionei leitinho com maisena e nada. Ainda precisava tomar banho, arrumar meu cabelo, e a esse ponto já tinha desistido de pintar as unhas. O tempo passava e a calda simplesmente não respondia aos meus esforços. Fui obrigada a declarar óbito mais uma vez.

A esperança porém, ainda não tinha morrido. Decidi que faria uma cobertura de brigadeiro. Simples, fácil e não tinha como errar.

...

E quem disse que eu tinha leite condensado em casa? Mais do que prontamente, observando à distância o nível da minha frustração aumentar, o homem do lar se ofereceu pra ir à caça. Agora pensando, talvez ele só quisesse mesmo uma desculpa pra sair do apartamento antes que eu começasse a colocar a culpa nele.  Quem em sã consciência se oferece para ir comprar qualquer coisa no dia de Natal? Bom. Ele foi e eu aproveitei o tempo para ir tomar banho. Nisso, já eram quatro da tarde e a gente tinha que estar lá antes das cinco.

Ele voltou enquanto eu desesperadamente secava o meu cabelo. Voltei para cozinha decidida que aquele bolo DARIA CERTO. Por algum motivo que desconheço, taquei duas latas de leite condensado numa mini panela que não tinha capacidade para tanto. Fingi que não percebi e coloquei o chocolate. Mexi por alguns minutos e lembrei que o ponto do brigadeiro a gente vê se baseando no fundo da panela. Fundo da panela esse que eu só conseguiria ver se fizesse metade da quantidade de leite condensado evaporar, obviamente.

OLHA. Não só não deu certo como também foi o primeiro brigadeiro que eu consegui estragar (ainda na categoria chocolate, a propósito). Tirei a panela do fogo antes do que deveria e quando coloquei a cobertura no bolo, o negócio só não estava tão ralo quanto água porque leite condensado é naturalmente mais denso.



Fui para o jantar atrasada, sem bolo e sem honra. Lembrarei para sempre desse Natal.

Como foi o de vocês?! 

20 de dezembro de 2011

Enquanto isso, meu pai no Facebook

"Gente... Tenho lido muita coisa aqui, e percebo a preocupação de muitos em colocar pensamentos e idéias construtivas. Indo nessa mesma filosofia, quero deixar um pensamento profundo e muito útil a todos: 'O IMPORTANTE É O PRINCIPAL, O RESTO É SECUNDÁRIO'. Boa semana."

27 de novembro de 2011

Vida de dona de casa

Estou morrendo de fome e então saio do quarto pra comer alguma coisa. No meio do caminho, tiro o pó, levo o lixo pra fora, tiro a louça da máquina de lavar, guardo tudo no lugar, recolho dois pratos que estavam em cima da mesa, volto para o quarto e... esqueci de comer.

4 de novembro de 2011

Virei modelo (parte 2: O desfile)

Primeira parte da história aqui!

Cheguei no lugar do evento surtando porque achei que tava atrasadíssima, que não ia dar tempo de fazer minha maquiagem, que meu cabelo ia ficar horrível, as roupas não iam servir e... só o professor tinha chegado. Pouco tempo depois, as outras meninas apareceram e então todas fomos sentar para começar a fazer o que faríamos pelas próximas horas: esperar.

Nos levaram para uma sala gigantesca e só naquele momento eu percebi o quanto eu estava faminta. Eram cinco da tarde e eu não tinha almoçado ainda. Para a minha sorte, a primeira coisa que eu avistei quando cheguei na sala foi uma mesa com três bandejas de sanduíches (do Subway! Com potinhos separados de azeitona, pimentas e molhos!) empilhados em forma de pirâmide. Meu instinto foi mergulhar na bandeja e morder todos os sanduíches simultaneamente, jogando condimentos pro alto e passando os pães na cara de tanta felicidade por existir gente nesse mundo que se preocupa com a minha fome. Mas aí lembrei que estava entre modelos. Ninguém nem tocava na comida e eu naquela agonia de querer comer pelo menos uns doze sanduíches de uma vez só. Discretamente, comi um (tava com tanta fome que nem me dei ao trabalho de tirar uma micro fatia de queijo que muito teria me perturbado caso o contexto fosse outro).

Logo que os cabeleireiros e maquiadoras chegaram, me chamaram para fazer o cabelo. Obviamente, eu tinha imaginado um penteado volumoso e esvoaçante, ondulado na medida certa para valorizar o formato do meu rosto e me agraciar com uma confiança digna da top model que vive dentro de mim. O penteado que me fizeram foi mais ou menos assim:








Bom. Foi chegando a hora do desfile e quando minha maquiagem ficou pronta (com o detalhe pertinente de que a maquiadora disse que minha pele é ótima e ficou convincentemente surpresa quando soube que eu não era modelo de verdade) fomos todas para o salão do desfile para nos trocarmos. 

Coloquei a primeira roupa e os sapatos. Menos de cinco minutos (ou pelo menos foi o que pareceu) depois, a música já estava tocando e uma mulher estava falando no microfone, explicando um pouco sobre o evento e introduzindo a parada toda. Me disseram que eu era a número dez e eu fiquei lá tranquilona achando que ainda fosse demorar um tempão antes que chegasse a minha vez. Antes de eu conseguir concluir esse calmo e confortável pensamento, me puxaram pra ir pra fila com urgência.

Gente. Até aquele mesmíssimo momento eu não estava nem um pouco nervosa. Na hora que eu subi o primeiro degrau da escadinha pra passarela, meu pobre coraçãozinho começou a hiperventilar instantaneamente. Quando vi já tava lá.

As luzes eram fortes. Mesmo tendo estado na passarela no dia do ensaio e sabendo qual era o formato, a comprimento e a altura, na hora eu não estava vendo nada. Andei no ritmo da música e olhei para frente. De algum modo, quando pisquei de novo, eu já estava de volta atrás do palco e minha primeira roupa estava sendo arrancada por desconhecidos enquanto outros me colocavam no segundo e último vestido. O vestido. 

Quando experimentei o vestido antes, ele me serviu direitinho - a não ser pelo comprimento que precisava ser um pouco diminuído. O professor disse que faria isso naquela noite mesmo e tudo ficaria ótimo. Não fez. Coloquei o vestido na hora do desfile e gelei num terror repentino. "- Vou cair nessa merda, tenho certeza",    eu pensava enquanto me espetavam com alfinetes e colocavam fitas dupla-face nos meus peitos para a parte de cima colar. Sentei num canto (a coleção dos vestidos era a penúltima) em ligeiro estado de calamidade interna. "- Pior vai ser se eu sair catando cavaco", pensava. Logo vieram me chamar, já estava na hora.

Mais uma vez, andei no ritmo da música e olhei pra frente. Não só NÃO caí, como andei até meio rápido demais. Lembro de que o tempo que eu fiquei parada para as fotos pareceu uma eternidade e, como num piscar de olhos de novo, eu estava de volta nos bastidores, dessa vez respirando aliviada que tinha dado tudo certo.


 

Que me dizem?!

22 de outubro de 2011

Virei modelo

A principio eu me voluntariei para trabalhar nos bastidores. Não sabia se tinha ouvido direito quando o professor disse que precisavam de voluntários tanto para os bastidores do desfile e como para desfilar de fato, mas como sou provida de uma ou outra célula de modéstia, pensei que mesmo que fosse o caso de precisarem de modelos, EU não serviria pra ser uma delas, afinal, né? É. Então. Como achei que seria legal estar no evento de qualquer maneira, mandei um email para o professor confirmando a minha presença.

Alguns poucos dias se passaram e eu comecei a surtar levemente com a falta de informação sobre o que eu teria que fazer, quais seriam as responsabilidades e do que realmente se tratava esse tal evento. O professor respondeu com a lista dois dias depois. O evento é gigantesco. É tipo uma convenção com tudo que se pode imaginar sobre fazeção de roupas. Um milhão de stands divulgando desde tecidos para sofá até cristais Swarovski. Ao longo dos três dias de evento, ocorre uma espécie de campeonato entre os grupos de melhores alunos das principais faculdade de Design (não sei se do país inteiro ou só da província). Eles têm que construir uma roupa específica baseada no tema que é dado pra eles logo no início. Sei lá, basicamente é isso. O que importa é que junto com a resposta sobre o que era o evento, o professor mandou também uma humilde lista de VINTE E QUATRO coisas que seriam responsabilidades totais e completas dos dressers, entre elas:

- ajudar a vestir as modelos,
- colocar roupas na ordem certa,
- conferir e arrumar todos os acessórios,
- conferir e arrumar todos os sapatos,
- manter as modelos calmas e relaxadas,
- levar linhas e agulhas (evidentemente partindo do pressuposto que os voluntários sabem o que fazer com elas)
- passar e vaporizar as roupas (evidentemente achando que os voluntários já fizeram isso alguma vez na vida) e resumindo: ser um dos peões do desfile.

Minha reação foi tipo:



Tentei me convencer de que seria legal, de que eu não estragaria roupa nenhuma, de que não haveria motivo pra eu ter que tranquilizar uma modelo e, bom, finalmente admiti que eu não tenho grandes poderes de persuasão quando a pessoa a ser persuadida sou eu mesminha. "Merda", pensei. "Agora já era... se pelo menos ainda precisassem de modelos...".

No dia seguinte, uma outra professora comentou que ainda estavam precisando modelos. Fiquei meio assim porque eu já tinha confirmado que trabalharia nos bastidores, mas a minha decisão era simples. Se me aceitassem como modelo para o desfile, eu desfilaria. Convenhamos, a escolha era uma lista de vinte e quatro responsabilidades, preocupações, agulhas e ferros de passar roupa versus sentar confortavelmente numa cadeira para que profissionais façam seu cabelo e maquiagem, vestir roupas diferentes e andar numa passarela ao som de música legal.

Eu e mais uma menina da minha sala fomos experimentar as roupas logo após a aula - na sala dos professores. Experiência peculiar essa de colocar roupas esquisitas na frente de gente que lidou com modelos de verdade a vida inteira, viu. Ainda mais sem espelho nenhum em volta. Bom, entrei lá Cintia, saí de lá oi-sou-modelo-e-quero-cinquenta-toalhas-brancas-música-instrumental-contemporânea-e-frutas-silvestres-no-meu-camarim-vocês-que-se-virem-seus-meros-mortais.

Ontem foi o ensaio. Todas as modelos (oi, sou modelo) se encontraram no lugar onde vai ser o desfile. Queriam que víssemos a passarela, testássemos a iluminação, posicionamentos e todas essas coisas de praxe que eu passei a minha vida inteira não imaginando. Mas foi interessante; é um ambiente bem distinto de qualquer coisa que eu já presenciei. A verdade é que fazer parte de um evento desses (com mordomias e tudo) é uma daquelas oportunidades que simplesmente não dá pra negar, né?

A parte dois dessa história eu conto aqui no blog depois do desfile. Por enquanto, deixo vocês com uma imagem meramente ilustrativa da fila de modelos no ensaio de ontem.


(sou a segunda da direita pra esquerda, caso não tenha ficado claro)

- Virei modelo (parte 2: O desfile)- 

16 de outubro de 2011

A história do piquenique que não deu certo

Ficamos a semana inteira planejando o piquenique, pensando no melhor lugar para ir, torcendo pro tempo estar bom. 

Chegou o dia e eu acordei relativamente cedo (meus parâmetros). Abri a janela e o tempo estava maravilhoso. Tínhamos decidido ir à um lugar perto, então eu tive bastante tempo para me arrumar e preparar os sanduíches perfeitos que eu fiquei imaginando durante aquela semana. 

Primeiro fiz o patê de atum: piquei a cebola em pedaços bem fininhos, coloquei azeitona e cenoura também. Depois lavei alface e tomates. Fatiei os tomates cuidadosamente. Abri a geladeira e peguei o salame que finalmente havíamos encontrado depois de incontáveis idas à supermercados diferentes - todos que eu experimentava não eram bons o suficiente. Queria dois tipos de sanduíche: de patê e de salame. Delícia.

Enquanto isso, ~ele~ estava colocando umas coisas em ordem no apartamento. Juntou uns papéis para levar pro lixo e tava arrumando coisas aleatórias. 

Preparei os sanduíches com aquela fomezinha safada de quem antecipa uma refeição específica por dias. Cada camada que eu colocava nos sanduíches eu soltava um suspiro de "ai que cheirinho bom". Embrulhei cada um separadamente em papel alumínio e coloquei todos dentro de uma sacola, prontos para levar.  

Como ele ainda estava terminando de se arrumar pra sair e eu já estava pronta, resolvi levar o lixo todo para fora. Peguei minha bolsa, os sanduíches e os sacos de lixo para jogar fora e já chamar o elevador. Ele, como sempre todo solícito, quando me viu saindo se ofereceu pra levar o lixo e me pediu apenas para pegar os sucos e o encontrar no elevador. "Fofo", pensei. Entreguei os sacos de lixo e a sacola com os tão desejados sanduíches, sem saber que essa seria a última vez que os veria. 

Dois minutos depois, no exato momento em que me ocorreu a ideia que ele talvez não tivesse percebido que a sacola com os sanduíches estava junto com as de lixo (visivelmente diferentes, vale acrescentar) ele abre a porta. O olhar era de terror, desespero. Dava pra ver que soava frio. 

"- Você não me deu os sanduíches né?"

Gente. 

Eu dei os sanduíches pra ele. Ele jogou os sanduíches fora. Todos. No lixo. Lixo de todos os apartamentos. Irrecuperável. Todos os sanduíches.




---




Deixo vocês com uma imagem minha ao lado do meu piquenique daquele dia.


Fim.

2 de agosto de 2011

Modinhas alimentícias

Primeiro vamos esclarecer que moda é uma coisa e modinha é outra: quando uma tendência é aceita por grandes grupos de pessoas, essa tendência é considerada moda. Pode ser de roupa, de cor, de música e por aí vai. Modinha é essencialmente a mesma coisa - a diferença é que junto com as modinhas vem uma atitude especial. Especialmente vomitável, no caso.  

Quem adere à modinhas se acha "diferente", "cult", "underground", "apreciador única e exclusivamente do que é bom". A pessoa se veste de um jeito característico ao tipo, anda por lugares pré-determinados pelo tipo, assiste e lê autores que se soubessem que tavam caracterizando um tipo, provavelmente nem teriam dado prosseguimento à algumas obras. 

A parte vomitável da questão é que osmodinha (termo que eu inventei pra pessoas aderentes ao fenômeno de modinha) não admitem que fazem parte de um grupo e têm horror ao que se torna popular. Porém, o que eles (osmodinha) não sabem - e se sabem não admitem, é que eles são tão populares quanto todos os outros e que se aquela determinada música que eles gostam for boa mesmo, ela se tornará tão popular quanto qualquer outra coisa que já era popular antes deles terem tempo de descobrir primeiro e decidir se gostavam ou não. 

Quando se trata de modinha, comidas não escapam. Muitas sempre estiveram disponíveis, mas só pelo fato de que alguém do grupo dosmodinha decidiu que AGORA são interessantes, agora são interessantes: 

~Starbucks~

Não sei se por influência de filmes (nem nos filmes isso faz sentido pra mim, inclusive), mas andar na rua segurando um copo de café virou status. Não importa se tá fazendo quarenta e cinco mil graus de calor e você tá carregando trezentas sacolas. Tá com um copo do Starbucks na mão? Você tem estilo.  

~Cupcakes~ 

Por algum motivo obscuro, cupcakes se tornaram sinônimo de bom gosto alimentar e fofura. Há TODOS anos atrás (pesquisa rápida wikipediana alega que cupcakes existem desde 1796 - ou seja) cupcake nada mais era que um bolo feito num pequeno recipiente. Ninguém falava sobre cupcake e não havia essa imagem rosa pastel e marronzinha de chocolate associada ao produto. Hoje em dia resolveram que não dá pra viver sem um cupcake diário. Já vi osmodinha usarem cupcakes até como moeda de troca: "Faz isso pra mim que eu te dou dois cupcakes". 

~Kit Kat~

Esse é o herdeiro do cupcake, que dominou o começo do ano mas que agora já não é mais tão essencial quanto era há dois meses atrás. Kit Kat SEMPRE foi a segunda opção. Se você pedisse pra sua mãe comprar Bis no supermercado e ela voltasse com Kit Kat, você ficava decepcionado. Agora mudou. Omodinha viaja pra fora do país, todos os outrosmodinha pedem pra ele trazer Kit Kat do aeroporto. 

~Frozen Yogurt~

Filas quilométricas no shopping pra comprar yogurt congelado com frutas e/ou coberturas de sabores diferentes por um preço astronômico. Agora me diz se fosse sua vó há três anos atrás dizendo que isso era "bom pra sua saúde" você teria entrado numa fila pra comprar. Aham.


"- Tenho um café e um cupcake, sou sofisticado"

3 de julho de 2011

O velho que não podia com açúcar, o filho babaca e o Josh

No momento em que entrei no McDonald's já percebi que tinha alguma coisa estranha acontecendo. 

Caminhei meio hesitante em direção ao balcão, tentando entender o que se passava sem demonstrar sinais muito óbvios daquele desespero que sempre dá quando a gente percebe que chegou no meio do barraco. 

Tinha um velho bem velho falando mais alto do que precisava e um cara com todas as características que alguém precisa ter pra parecer instantaneamente babaca, olhando para o chão e, obviamente, não tomando providência alguma em relação ao velho descontrolado.  

Como os dois ainda estavam em frente ao caixa, não dava pra eu fazer o meu pedido. Me posicionei como "próxima" e esperei. O velho calou-se enquanto examinava meticulosamente o conteúdo da bandeja à sua frente. Pegou a garrafinha de leite (líquido este que eu nem sabia que era comercializado no supracitado restaurante) e abriu. Tomou um gole e fez cara de quem avalia. Tossiu e disse: 

- Esse negócio tem açúcar, não acredito que tem açúcar sendo que eu pedi sem açúcar. Não posso com açúcar.
- Pai, vai ficar tudo bem, não é muito açúcar - respondeu o homem com cara de babaca.
- A diabetes é em mim não em você e você não sabe se vai ficar tudo bem, na verdade já te digo agora que não vai ficar tudo bem. Não posso com açúcar.

Chegou o atendende e o velho virou-se pra ele, chacoalhando a garrafinha de leite.

- Esse leite tem açúcar e eu pedi sem açúcar! Por que vocês colocam açúcar no leite de vocês?!
- Senhor, eles entregam o leite assim. Próximo. - disse o atendente, seco. Sabe-se lá quanto tempo já fazia que ele tava aguentando aquilo.

Antes de eu conseguir pegar fôlego para pedir minha comida, o velho pediu pra falar com o gerente. O atendente sumiu por uns momentos, voltou e disse:

- O gerente está muito ocupado, desculpe.
- Tudo bem, eu tenho tempo e posso esperar por ele - informou o velho, com aquele ar de velho que tem tempo. 

Silêncio.

- Pai - disse o homem que tinha deixado de apenas ter cara de babaca mas agora passava também a ser efetivamente considerado babaca - vamos comer, vamos?
- Não, quero falar com o gerente. 

Mais silêncio até que o nosso amigo babaca resolveu que a fome era muita, pegou a bandeja e foi sentar. Sem falar nada, o velho simplesmente foi sentar também. 

Pedi meu lanche e, claro, sentei perto dos dois para acompanhar na íntegra os acontecimentos que viriam.

A conversa que se seguiu não foi tão proveitosa quanto eu imaginava que seria, e eu já tava perdendo as esperanças de um bom post pro blog quando, de repente, surgiu um menino de camiseta vermelha. 

O velho e o filho estavam sentados bem na frente da máquina de refrigerante de modos que o menino teve que entrar no campo de visão deles para pegar sua bebida. Tenho certeza de que se ele soubesse o que o esperava, teria levado um suquinho de casa. 

O menino tava no meio do caminho quando foi chamado pelo velho. Acredito eu que pela camiseta vermelha que o menino tava usando, o velho achou que ele era o gerente e começou a reclamar do leite. Entregou o leite pro menino e disparou a falar que não podia com açúcar.

O coitado, compreensivelmente, ficou sem ação. Pegou o leite, olhou e devolveu pro velho, que começou a falar das porcentagens e dos absurdos que aquelas porcentagens eram. 

- Aliás, qual é o seu nome? - perguntou o velho pro menino.
- Josh. 
- Ah, certo, Josh. Eu sou o Ron e esse é o meu filho Kevin. 
- Legal, vou lá pegar o meu lanche. 

O menino saiu andando devarinho, receoso. Quando entrou no campo de visão do velho de novo, já com sua bandeja, meio que olhou pro velho, meio que não olhou, meio que dando um tchau, meio que não. 

- Ei, venha sentar com a gente! - disse o velho, que a essa altura já tinha esquecido que tinha achado que o menino era o gerente da loja. 

Ele sentou. 

Pra resumir um pouco essa história, digo pra vocês que os assuntos discutidos foram da carreira de rock'n'roll do velho até o verídico caso (verídico porque o amigo do velho disse pra ele que foi verdade) de um homem que bebeu tanto que a barriga dele explodiu. 

Nesse contexto, o velho puxou uns panfletos do bolso e começou a falar sobre abortos. Mostrou fotos, números e disse pro Josh que ele podia ficar não só com aqueles panfletos mas também com mais "esses outros dois que também são muito informativos". Só pra lembrar que gente, o Josh era um menino de dezesseis anos que tinha entrado no McDonald's para comer.

Acabou que o Josh disse que precisava ir embora porque tinha ainda muita estrada pela frente. Eles se despediram ao som do velho dizendo que eram oitenta milhões de abortos e que Deus ama o Josh mesmo assim. 

Quando o Josh saiu do restaurante, o velho virou pro filho babaca (que ao longo da conversa inteira só tinha levantado a cabeça pra perguntar pro Josh se ele tinha visto o clipe da Lady Gaga em que ela fala sobre o futuro) e disse:

- Quem diria que nós teríamos uma oportunidade dessas, hein!

Concordei, né. 

5 de junho de 2011

O caso do suco de uva (solução do mistério)

Procuramos pela caixa de suco por toda parte. Em todos os cantos da geladeira, embaixo da mesa, nos armários de pratos, dentro da máquina de lavar louça. Não estava em lugar nenhum. Era impossível ter sumido daquele jeito, além de completamente frustrante (afinal, não tínhamos tomado nem um terço dos dois litros do delicioso suco dentro da caixa desaparecida), mas acabou que nos conformamos. Não adiantava ficar procurando infinitamente e bom, ainda tinha suco de laranja.  

Gente, passou quase uma semana. Ele tava no trabalho e eu decidi limpar o banheiro. Abri o armário dos produtos de limpeza pra pegar o que eu precisava e ADIVINHA QUEM TAVA LÁ:
ACHÔ!

Pois é. O suco de uva tava na própria cozinha durante todo esse tempo. O pior de tudo: tenho quase certeza de que fui eu quem colocou ele lá. 
Beijos. 

3 de junho de 2011

O caso do suco de uva

Morar com outra pessoa é uma coisa que proporciona momentos. No meu caso, o morador é do sexo masculino e, bom, meu namorado. Isso nem faz muita diferença hoje, mas é bom que vocês já fiquem sabendo porque, com certeza, a história que se segue não será a única do tipo aqui pelo blog e sempre precisamos saber com o que estamos lidando, né. 

Ele - Que bom que você tomou o suco.
Eu - Não tomei.
Ele - Ué, cadê o suco então? - olhando pra geladeira.  
Eu - Sei lá, só sei que não tomei suco nenhum.
Ele - Hm, nem eu.
Eu - Como assim? Não pode ter sumido. Você tomou o suco, admita.
Ele - Não tomei. Acho que você que tomou.
Eu - Meu, por que eu MENTIRIA sobre isso?! 
Ele - É, realmente.

E ficamos um olhando pra cara do outro. 

Uma das coisas sobre morar sozinho é a comprovação física de que as coisas não se movem sozinhas. Elas só mudarão drasticamente de lugar se você estiver envolvido no processo. Quando são várias pessoas na mesma casa, normalmente dá pra colocar a culpa do sumiço de coisas em alguém que não esteja presente no momento da discussão (todo mundo faz isso, não se engane). Só que quando é você e mais uma pessoa que sempre está junto com você na casa, simplesmente não dá pra fazer isso. 

O resultado é que quando alguma coisa realmente desaparece nessas circunstâncias e os dois negam terem sido responsáveis pelo desaparecimento, o clima fica meio tenso: se não fui eu que tomei o suco, nem você, quem foi? O que pode ter acontecido a uma caixa de dois litros de suco de uva que até então estava entre nós e agora simplesmente sumiu? 

Deixem seus palpites do que aconteceu nos comentários. Vamos ver se alguém acerta, no próximo post eu conto.

26 de maio de 2011

Memorável

Em uma das minhas muitas idas ao supermercado, recentemente, eu estava me sentindo meio incomodada. Uma parte de mim tentava, silenciosamente, descobrir qual era o problema, enquanto outra simplesmente ignorava o que acontecia ao redor, concentrada na escolha de limões. 

De canto de olho, avistei o motivo da minha inquietação passando de um lado pro outro das bancas de frutas, correndo como se a vida dele dependesse disso. O molequinho vestia uma camiseta verde e tinha aquela clássica cara de "vou tocar o terror nesse supermercado e ninguém vai me impedir a não ser que a minha mãe consiga me pegar".

Minha primeira reação foi tentar achar a mãe do cidadão. Ela não estava muito longe - apenas longe o suficiente para que sua prole da Tasmânia se sentisse fora de risco de bronca. Deu pra indentificar mãe do animalzinho certeiramente porque ela foi a única que, ao percerber uma agitação estranha no ambiente, só deu uma olhada pesarosa pro filho louco, virou as costas e continuou o que tava fazendo. 

Olhei de volta pro moleque e ele tinha um carrinho em posse. Carrinho de supermercado comum: barulhento, grande, fora de controle. Claramente, o que aconteceu foi que ele saiu pilotando aquela arma dosinferno com toda a experiência e capacidade que se esperaria de uma pessoa daquela idade e tamanho. Bateu o carrinho em tudo que se encontrava em volta, forte. 

A barulheira tava começando a ganhar mais intensidade quando de repente parou. Eu já tinha desistido de prestar atenção no que o menino tava fazendo porque não queria ser considerada cúmplice. Foi o silêncio súbito que chamou minha atenção de novo. 

O velhinho uniformizado com as cores do supermercado, cabeça branca e um carrinho cheio de frutas frescas para repor (velhinho este que até então era só figurante na história) agora apontava pra cara do moleque, de pertinho. A mãe do menino se aproximou da cena rapidinho, mas não falou nada.

"- Você vai acabar se machucando e indo pro hospital se não parar de fazer baderna*. Não quero ouvir moleque nenhum chorando aqui", disse o velhinho mirando na ALMA do pivete. (*"baderna" sendo o termo mais provável que um vô usaria em português para dar bronca em crianças aleatórias. Minha vó também usa "anarquia").

A expressão no rosto do menino era impagável. Dava pra ver o cérebro dele gravando aquele episódio inteiro na pasta "Memórias Eternas". A mãe olhava pro velhinho com agradecimento nos olhos enquanto apertava o ombro do moleque com uma mão só. 

O salvador da pátria falava meio baixo e por isso eu não ouvi o final do esculacho, mas no final, quando mãe e filho caminhavam em direção aos caixas, ouvi ela rosnar pro moleque: "Que vergonha que você me fez passar, sinceramente". 

Sem dúvida, daqui a alguns anos esse menino estará por aí contando essa história pros amigos. Se não tiver virado serial killer de velhinhos funcionários de supermercados, obviamente. 

Vocês já levaram bronca de um desconhecido? Me contem nos comentários!