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26 de maio de 2011

Memorável

Em uma das minhas muitas idas ao supermercado, recentemente, eu estava me sentindo meio incomodada. Uma parte de mim tentava, silenciosamente, descobrir qual era o problema, enquanto outra simplesmente ignorava o que acontecia ao redor, concentrada na escolha de limões. 

De canto de olho, avistei o motivo da minha inquietação passando de um lado pro outro das bancas de frutas, correndo como se a vida dele dependesse disso. O molequinho vestia uma camiseta verde e tinha aquela clássica cara de "vou tocar o terror nesse supermercado e ninguém vai me impedir a não ser que a minha mãe consiga me pegar".

Minha primeira reação foi tentar achar a mãe do cidadão. Ela não estava muito longe - apenas longe o suficiente para que sua prole da Tasmânia se sentisse fora de risco de bronca. Deu pra indentificar mãe do animalzinho certeiramente porque ela foi a única que, ao percerber uma agitação estranha no ambiente, só deu uma olhada pesarosa pro filho louco, virou as costas e continuou o que tava fazendo. 

Olhei de volta pro moleque e ele tinha um carrinho em posse. Carrinho de supermercado comum: barulhento, grande, fora de controle. Claramente, o que aconteceu foi que ele saiu pilotando aquela arma dosinferno com toda a experiência e capacidade que se esperaria de uma pessoa daquela idade e tamanho. Bateu o carrinho em tudo que se encontrava em volta, forte. 

A barulheira tava começando a ganhar mais intensidade quando de repente parou. Eu já tinha desistido de prestar atenção no que o menino tava fazendo porque não queria ser considerada cúmplice. Foi o silêncio súbito que chamou minha atenção de novo. 

O velhinho uniformizado com as cores do supermercado, cabeça branca e um carrinho cheio de frutas frescas para repor (velhinho este que até então era só figurante na história) agora apontava pra cara do moleque, de pertinho. A mãe do menino se aproximou da cena rapidinho, mas não falou nada.

"- Você vai acabar se machucando e indo pro hospital se não parar de fazer baderna*. Não quero ouvir moleque nenhum chorando aqui", disse o velhinho mirando na ALMA do pivete. (*"baderna" sendo o termo mais provável que um vô usaria em português para dar bronca em crianças aleatórias. Minha vó também usa "anarquia").

A expressão no rosto do menino era impagável. Dava pra ver o cérebro dele gravando aquele episódio inteiro na pasta "Memórias Eternas". A mãe olhava pro velhinho com agradecimento nos olhos enquanto apertava o ombro do moleque com uma mão só. 

O salvador da pátria falava meio baixo e por isso eu não ouvi o final do esculacho, mas no final, quando mãe e filho caminhavam em direção aos caixas, ouvi ela rosnar pro moleque: "Que vergonha que você me fez passar, sinceramente". 

Sem dúvida, daqui a alguns anos esse menino estará por aí contando essa história pros amigos. Se não tiver virado serial killer de velhinhos funcionários de supermercados, obviamente. 

Vocês já levaram bronca de um desconhecido? Me contem nos comentários!

11 de outubro de 2010

Dia das Crianças

Aí que chega o Dia das Crianças e todo mundo fica super nostálgico, lembrando de todas as maravilhas de seus tempos de infância, afirmando federalmente que aqueles sim eram os bons tempos. Só que gente, prestenção. Vocês tão com uma memória muito curta e seletiva - ser criança é uma coisa frustrante e não é à toa que passamos praticamente a infância toda querendo crescer logo. Acompanhem:

Não poder nem chegar perto da sobremesa antes de almoçar.
Quantas não foram as vezes em que enchemos o saco de nossos pais, choramos e fizemos drama por não poder tomar sorvete antes do almoço, não é mesmo? Essa regra sempre foi uma chatice gigantesca e os argumentos tipo "- mas mãe, eu VOU comer a comida também!" nunca funcionavam. Definitivamente, poder comer sobremesa antes do almoço sempre foi um dos grandes motivos que me faziam querer crescer mais rápido.

Lidar com "Não posso falar isso porque tem criança na sala".
Argh, queria morrer todas as vezes que falavam isso perto de mim. Na minha casa sempre tinha visita e mais cedo ou mais tarde essa maldita frase saía. Para mim sempre soou tipo "bem que eu gostaria de falar abertamente sobre o assunto, mas esse encosto em forma de miniatura humana está aqui, então outra hora eu te conto". Como se o fulano não soubesse que a criança está ali do lado e se sentirá tão constrangida por existir como se alguém fizesse a mesma coisa com ele. Não sei se eles acham que estão preservando nossa inocência ao evitar um assunto falando essa específica frase, mas o que eu posso dizer é que pelo menos no meu caso, cada vez que o negócio era comigo a minha inocência se dissolvia um pouco mais junto ao ácido sulfúrico que eu desejava ter para jogar na cara de quem estava querendo bancar o adultão

Esperar uma hora depois de comer para poder entrar na piscina.
Todo mundo sabe não tem problema nenhum entrar na água depois de comer e que essa história só é contada até hoje porque, na verdade, nada mais é do que uma das mais famosas desculpas que os primeiros pais da História inventaram para poderem ficar conversando durante mais um tempinho antes de terem que ir se preocupar com seus filhos morrendo afogados. 

Não ter controle sobre seu próprio cabelo.
Pouquíssimas são as pessoas que depois de adultas têm orgulho das fotos de tempo de criança. Eu não sei por qual inexplicável motivo nossos pais optam por nos dar cortes de cabelo tão horríveis quando somos crianças, mas acontece e existem provas. Pior de tudo é que só descobrimos o quão ridículos nós éramos depois que crescemos, mesmo. É só vendo as fotos hoje em dia que você finalmente entende porquê o menino da sétima série não te dava muita bola - na época não fazia sentido. Se não era o seu cabelo, era o óculos ou alguma outra coisa muito absurda pela qual você e seus poucos anos não eram responsáveis.

Ir dormir cedo.
Não é nem a questão de ir dormir cedo em si, mas a tensão de estar chegando determinada hora e você começar a contar os minutos de liberdade que ainda lhe restam. Aí chega a hora só que ninguém parece se lembrar de te mandar para cama. Você fica feliz mas ao mesmo tempo não pode demonstrar muita emoção porque não quer que eles lembrem que você está ali ilegalmente. Aquela sensação de clandestinidade lhe corrói por dentro a cada minuto extra que se passa porque enquanto você está tentando ser invisível porque você sabe que a qualquer minuto que alguém vai chegar e te mandar dormir - e com mais urgência porque você "já devia estar na cama!". 

Ter seus problemas totalmente subestimados.
Problema de criança nunca é considerado problema de verdade porque eles "são felizes e não sabem", "não têm nenhuma responsabilidade que não seja a escola" etc. Só que a gente nunca pára para pensar que os problemas deles são os maiores que eles já tiveram e portanto tão estressantes para eles como os nossos são para a gente. Escola é uma das fases mais difíceis da nossa vida - todo mundo fala que é na escola que a gente termina de desenvolver nosso caráter e nossa personalidade e é mesmo. Agora pensa: se quando alguém aponta um defeito que precisa ser consertado na sua personalidade você já fica todo ofendido, sabendo como seria difícil se acostumar a agir de modo diferente sobre determinada coisa, imagina como não é o processo de construir o troço inteiro com seis anos de idade, sofrendo as consequências de todas as decisões erradas pela primeira vez. Tenso, né.


Resumindo:

Ser criança é ter todos os problemas do mundo e ser obrigado a lidar com eles tendo um cabelo tosco.

Parabenize suas crianças.

24 de setembro de 2010

Enchida

Estava eu na padaria, esperando há uns vinte minutos (também conhecidos como "cinco minutinhos") pelos mini kibes que tanto me apetecem, viajando pelo incrível mundo das tortinhas de morango quando de repente fui trazida de volta à realidade por duas meninas.

Ambas estavam perto de suas mães, porém longe o suficiente para se sentirem confortáveis em terem uma conversa criancística normal. Uma delas, a mais gordinha, devorava um picolé furiosamente, impossibilitada de pronunciar qualquer coisa que fizesse sentido. A outra não parava de falar. 

Não teria nem prestado atenção nelas se não tivesse ouvido a seguinte frase:

- É por isso que você é...

De longe senti o cérebro infantil trabalhando e foi nesse momento que olhei para elas. O barulho da conversa era constante até aquele momento, mas o silêncio que se estabeleceu depois das reticências foi denso o bastante para despertar minha atenção. A que se acabava com o sorvete olhava fixamente para a outra, que com as mãos no ar representava a avantajada forma física da amiga, claramente tentando completar a frase que havia começado. 

- É por isso que você é meio... enchida. Enchida. É, acho que essa é a palavra certa. Você é meio enchida.

A outra a encarava tipo "e o que você está querendo dizer?". O constrangimento da que tinha começado a conversa sobre pesos e medidas era inegável. 

Concluíndo que sua mensagem ainda não tinha sido passada de maneira satisfatória, ela levou as mãos ao ar de novo, recriando o formato da barriga da outra. Dava para perceber que ela estava se esforçando para ser policamente correta. 

- Posso falar que você é gorda? - disse, falhando miseravelmente.

Moral da história: se não estiver conseguindo se explicar direito, pare de tentar.

13 de maio de 2010

Tempo é dinheiro?

Por que criança tem que correr tanto?

Já perceberam? Parece que elas não conseguem andar, têm que correr. Como se atravessar o parquinho para chegar de um brinquedo no outro fosse questão de recorde. E veja bem, eu não estou falando de correr contra alguma outra criança. Estou falando de apenas uma criança no parquinho. Eu sei que eles têm amigos imaginários mas dá para ganhar de um amigo imaginário até se você estiver se arrastando, não?

Um dia eu vou parar uma criança e perguntar qual é a pressa.

É coisa de velho isso que eu estou escrevendo?

7 de abril de 2010

Amiga-noiva


A vida é composta de transições do começo ao fim - leia-se: você nunca sabe o que vai acontecer a seguir. De dentro da barriga da sua mãe, para as mãos frias e enluvadas de um mascarado que todo mundo parece obedecer. Do conforto da sua casa para um parque com chão de pedrinhas que nunca vão sair do seu All-Star, lugar que também costumam chamar de pré-escola.

Você vai crescendo e coisas incríveis acontecem. Entra na faculdade, tem um emprego, seus pais se sentem mais a vontade para conversar perto de você (mãe falando "foda", pai falando da sogra, ambos falando de como foi o processo de seu nascimento - alguém me salve). 

Uma das transições mais estranhas de passar até agora é a de um dia fazer parte das crianças entediadas de uma festa de casamento e no outro ser convidada como madrinha. Como assim, né? Sou filha de músicos e por isso sempre estive perto de noivos discutindo cada detalhe da cerimônia e festa, isso quando não estava no próprio casamento, arrumando a gravata do noivo (me senti muito importante naquele dia).   

Estar longe da primeira amiga-noiva é ruim, porque eu quero que o casamento dela seja exatamente como eu acho que tem que ser perfeito. Como eu sei que ela vai ler esse texto, digo que apesar de já ter me passado o site da loja do vestido, o site do fotógrafo, o nome do buffet e todos os detalhes da conversa que ela teve com os meus pais (que vão ser os músicos dela) - isso tudo não é o suficiente. Não sei exatamente o que mais eu quero, só sei que quero. Me providencia, Letícia.

O noivo é uma das pessoas mais legais que eu conheço, os dois não podiam ser mais perfeitos um para o outro. Vale dizer que com o background de ambos (muito bem conhecido por mim, diga-se de passagem), eu sei do que estou falando: as qualidades do casal vão desde a capacidade de manter um diálogo polissilábico com outro ser humano a um nível aceitável de beleza. Desculpem-me os bovinos, mas precisava ser dito. 

No fim das contas, ter um casamento que você realmente aprova* e confia acontecendo entre seus amigos meio que aquece o coração. Coisas boas ainda acontecem! Parabéns, queridos - estou muito feliz por vocês.

Quanto a mim, não sei exatamente o que pensar sobre essa nova fase da minha vida. O que eu penso é que ser uma criança entediada num casamento é melhor do que ser uma madrinha entediada. Crianças podem sentar e dormir. 

*ela não simplesmente escolheu o noivo, eu tive que dar permissão.

7 de junho de 2009

Baixote

Pela décima vez, vem o pequeno - no close - dessa vez com a mão estendida:

- Bate aqui. Ahá! Cifrinho diabete!!
- Chifrinho diabete?!
- É, fui eu que inventei.

Estou sentindo falta de criança.

6 de dezembro de 2008

A Crocodila Baiana - terceiro episódio

#10


- Qual seria o seu método para acabar com o mundo, Cíntia?
- Hm...
- Bom, o meu é simples. Eu criaria um creme capilar que derretesse o cérebro das pessoas.


Certas coisas são realmente simples. 

#11

No meio da sala, aquele ambiente selvagem, um dos pequenos olha pra mim e conclui:

"- A Cíntia não gostaria de estar aqui".

Eles sabem quando eu estou de TPM. E eu juro que estava só sentada, tipo, sem arrancar a cabeça de ninguém.

11 de abril de 2008

A Crocodila Baiana - segundo episódio

Da série Crocodila Baiana - Reflexões, Explicações e Conclusões.

#6

- Ô Cintía*, você chegou a ver a explosão de chocolate que aconteceu em Beberly Hiutom?

- Onde?

- Beberly Hiutom [escrevendo em um papel].

- ...

- Chegou a ver?

*Cintía = Sim, tia. [!]

#7

- Professora, por que eu não sou uma formiga? Sério, se eu fosse uma formiga eu não precisava estudar.

- Você não sabe da vida das formigas.

#8

- Sobre o que é esse livro?

- Sobre o cérebro. Arrancaram o meu cérebro, por isso sou burro.

#9

- Eu preciso tirar minhas dúvidas de Ciências.

- Por quê?

- Porque eu costumo dormir nas aulas.

21 de março de 2008

A Crocodila Baiana

Como havia prometido, o material do caderno até então confidencial será compartilhado com meus prezados leitores (quem melhor, não é mesmo?). Depois de muita reflexão tentando escolher entre escrever um poema ou uma nova enciclopédia, optei por criar uma série que batizei de 'Crocodila Baiana' por motivos que vocês logo entenderão. Dentro dela, dividirei as ocorrências anotadas no caderno em tópicos. Enfim, como teoria é sempre chata e no final a gente só aprende direito com a prática, vamos ao que interessa.

Da série Crocodila Baiana, Certas coisas são óbvias.

#1

- Prô, posso limpar minha borracha na parede?
- Não, né. Limpa embaixo da mesa. Se você limpar na parede vai sujar a pobre coitada.
- Ah, e daí? Eles nunca arrumam a quadra.

#2

- Ô prô! Eu vou contar pra coordenadora que o Fulano não trouxe a apostila de matemática dele.
- E por que você está mexendo nas coisas dele?
- Pra copiar a lição ué.

#3

Contextualizando: A questão na apostila pedia para que o aluno explicasse o motivo de Bete e Joelma terem descido, juntas, as escadas.

'Bete desceu e Joelma desceu porque são muito amigos e amigos nunca se separam.'

Enquanto eu lia a resposta, ele me olhava com aquela de 'por-favor-me-deixa-ir-embora'. Terminei de ler e olhei para ele, atravessando seus olhos e perfurando sua alma:

- Você sabe muito bem que essa não é a resposta certa.
- É, só que essa é a minha opinião e uma opinião não pode estar totalmente errada. Olha minha outra lição, vai.

#4

- Sabe o que é adultério, prô?

Eu, pensando: Será que foi uma retórica ou será que ele está realmente querendo saber o que é? Respondo que sim e saio andando, simplesmente ignoro ou explico o que é? Até onde esse assunto pode chegar e por que será que surgiu?

- Não, o que é?
- É um lugar onde só os adultos podem ir. Proibido para menores de 18 anos.

Eu, pensando: Ufa.

#5

Observação: De longe, eu percebi que ele estava concentrado demais no que estava fazendo. Concluí acertadamente que, fosse o que fosse, não havia nem chance dele estar fazendo lição.

- Já terminou sua lição?
- Peraí, deixa eu terminar a Crocodila Baiana. Aliás, [virando a página] você conhece o Doutor Demoníaco Boca de Caçapa [me entregando o caderno]?

Os desenhos contidos nas páginas são tão bons quanto a convicção dele nos nomes das personagens - que ele tava inventando naquele momento, com certeza.



Viram? Quando eu falei da possibilidade de escrever um romance com o material produzido, falava sério.

18 de fevereiro de 2008

Só segunda-feira

Mudei de emprego. Clima diferente, novos ares, tudo o que eu queria. Certas coisas a gente só percebe depois que mudam radicalmente, né? Não tem jeito.

A parada é que agora trabalho num colégio. Principalmente com Ensino Fundamental. Eles são uns pestes - isso não se pode negar. Mas nossa, são engraçados. Quando dá a minha hora de ir embora eu saio com dor de cabeça, mas com dor na barriga também, de rir.

Uns dias antes de começar lá, fui visitar a sala deles. Selva. A coordenadora me olhou piedosamente; 'mal sabe ela das coisas pelas quais já passei', pensei.

Em uma semana de trabalho já tive parte do meu vocabulário renovado. Naruto, Hannah Montana, Nerds. E eles explicam meio sem paciência, como se, em vez de ter perguntado o que diabos significa 'naruto', tivesse perguntado, sei lá, o que é Timão e Pumba.

Eles também já não nos chamam de 'professor(a)', nem 'psor(a)'. Agora é 'prô'. Prô Cíntia. Fofo, né?!

Eu sei que hoje eu estava lá, junto das duas outras professoras, atendendo uns quinze alunos simultaneamente, quando, não mais que de repente, materializou-se um ser - era um outro aluno que simplesmente surgiu, bem na minha frente. Ele me olhava nos olhos, profundamente:

'- Prô, esse lugar é um inferno.'

Morri, né. Ele estava falando aquilo por motivos óbvios. Calor, mini-pessoas gritando, três professoras de um lado para o outro, meteoros caindo, blocos de gelo se desfazendo... O próprio Apocalipse. Detalhe: Hoje é só segunda-feira.

31 de outubro de 2007

As crianças me adoram

Numa dessas visitas à familias amigas da minha família, havia uma menininha.

Durou cinco minutos o tempo entre eu chegar na casa da anfitriã e estar no quarto pink dela, com uns cinco brinquedos diferentes no colo e o filme do "High School Musical 2-que-ela-tinha-gravado-na-noite-anterior-porque-ia-terminar-muito-tarde-e-ela-não-podia-ficar-acordada-até-tão-tarde-e-aí-o-Troy-e-Gabriela-cantavam-aquela-música-olha-a-roupa-dela-que-bonita" passando.

Aí ela descobriu que eu tinha feito escova no cabelo, coisa que a mãe dela só vai deixá-la fazer quando tiver quinze anos. Pronto, cinco brinquedos no colo, o filme-etc-etc e uma coisinha rosa pendurada em mim.

Mais a noite, fomos jantar. Ela naquela velocidade de lesma que toda criança come. Eu observando sem que ela percebesse. Caridosamente, depois de terminar, me ofereci para fazer o famoso e prático 'aviãozinho', quem sabe assim aquela agonia acabava de uma vez.

- Ó o aviãozinho uóóóó!!


- Mas eu já estou com comida.

Abaixei o garfo num momento de frustação, mas não me deixei abalar, psicologia infantil, vamos lá.

- Ó que eu vou enfiar isso daqui pelo seu nariz, menina. - disse, eu, dócil.

- Mas eu já estou comendo!


- Mentira.

Desisti da missão, pensando que talvez meu espírito maternal não fosse exatamente como imaginava. Nâo mais do que de repente:

- Cintiá, pode fazer o aviãozinho agora, ó - aaaahhh!!

As crianças me adoram, não tem jeito.

Conversa vai, conversa vem, lá estava ela falando um filme qualquer.

- Aí, naquele filme, ele faz assim e nossa, muito legal, aí...


- Eu nunca vi esse filme, mals.

Precisa ver a cara que ela ficou.

Antes de irmos embora, eu continuava com diversos brinquedos em volta, já tinha sido a-Gabriela-e-ela-o-Troy-,-depois-eu-fazia-o-Troy-e-ela-a-Gabriela-,-mas-na-verdade-ela-gostava-da-Sharpay-(?)-,- mas-tudo-bem. Foi aí que ela me definiu:

'Você só faz coisa boa, vai ser arteira quando crescer'.

Sim, eu anotei todas essas coisas. Ah, e atrás da folha do desenho de flor marrom que ela fez pra mim. Crianças me adoram :)

25 de agosto de 2007

Os Coisinhas Fofas

Nos remotos tempos de escola, alguns professores diziam que nunca imaginavam que um dia seriam professores, mas que isso simplesmente aconteceu e que depois que começaram já não se imaginavam deixando de lecionar. Aí eu pensava: 'af, isso nunca vai acontecer comigo'.

Quem diria que eu passaria a ouvir, muito mais constantemente do que jamais poderia pensar, frases como: '- Aaaai, teacher, espera! Não apaga a lousa aindaaaa!', ou 'teacher, posso escrever de lápis?', ou ainda 'ó teacher, não fiz esse exercício porque não entendi, tá?'.

Tempo livre é ouvir música prestando atenção na gramática e no vocabulário da letra, avaliando se dá para usar na aula ou não. Dor de cabeça é surpresa quando não acontece e mobilidade no pescoço é luxo. Mas aí, no final da aula, vem aquela coisa fofa, com metade do meu tamanho e cabelinho irritantemente liso dizer tchau e me dar um beijinho. '- Bye teacher!'.

Ai, ai.