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25 de maio de 2012

Coisas chatas sobre transporte público

Correr pra pegar o ônibus

Você se descabela correndo como se não houvesse amanhã porque acha que o veículo está pra fechar as portas e te deixar pra trás e, quando finalmente entra no ônibus se achando a verdadeira Tomb Raider do transporte público, ele fica com as portas abertas por mais dez minutos e você lá.

Gente que fica parada na escada rolante

Você está naquele mesmo clima de pressa do item anterior, sabe que cada degrau a menos é determinante e tem certeza que o metrô só vai esperar mais trinta segundos. Desce três degraus da escada rolante e se depara com o velhote que em vez de descer preferiu ficar parado no MEIO do degrau observando a paisagem, bloqueando todos atrás dele e portanto te atrasando num valor de pelo menos sete degraus.

(o sentimento)
A porta do trem não pára na sua frente

O metrô finalmente chega e, por algum motivo que não faz sentido uma vez que você terá que andar pra entrar no transporte público de qualquer jeito, você quer que a porta coincida com seu posicionamento. Nunca acontece.

Tem cadeira livre e ninguém senta

É como se fosse obrigação sofrer o sacodimento em pé. Fica uma tensão porque todo mundo quer sentar mas ninguém tem coragem. Obviamente, todas as pessoas que precisam sentar (grávidas, idosos etc) já estão acomodadas e aquele lugar está l-i-v-r-e. Todo mundo se olha e continua em pé se sentindo ótima gente pelo sacrifício.

Pessoa atrapalha sua paz pra sentar e tem que levantar duas paradas depois

Já costumo sentar na cadeira longe da janela pra dificultar e desmotivar as pessoas a sentarem do meu lado. Normalmente funciona. Vem a dona cheia de sacolas, bolsas, filhos e comidas indianas e faz aquela cara de "vou sentar do seu lado". Me cotovela trinta mil vezes até conseguir sentar (mudo minha posição só o suficiente pra fingir que me importo em ajudar, mas na verdade não mudo nada. Sou ruim mesmo - gente sem noção espacial tem que sofrer nem que pra isso eu tenha que sofrer junto) e senta. DUAS PARADAS DEPOIS, a mulher me olha com cara de "tenho que sair" e levanta pra sair, passando pelo mesmo processo de agonia de novo. Merece ou não merece um chute na bunda pra aumentar a inércia enquanto o ônibus pára? Merece.


Que mais?

16 de janeiro de 2012

A coisa mais nojenta do ano

AÍ que eu estava no metrô e, sentada na minha frente, estava uma menina loira de olhos claros, lendo um livro. Aparentemente inofensiva e normal. Se não fosse o fato de que ela estava fuçando no nariz descaradamente. E COMENDO O QUE TIRAVA DO NARIZ. 





Af, que ASCO, Brasil. Foi o tipo de cena que eu sei que não serei capaz de esquecer tão cedo. Pensei em dar um berro de nojo e em seguida vomitar na cara dela, mas eu me encontrava num estado de choque tão absurdo que fiquei simplesmente paralisada. 

O que VOCÊ teria feito? Qual foi a coisa mais nojenta que você já presenciou?

19 de outubro de 2010

Luta pela sobrevivência

Cheia de sacolas, uma mochila pesando novecentos e trinta e sete quilos por causa dos cinquenta e nove mil livros, um guarda-chuva que dava bem para proteger o mundo inteiro de um segundo dilúvio, fones de ouvido que enroscavam em todas as alças de todas as coisas que possuiam alças e, por último mas não menos importante, com um humor não muito receptivo ao inferno que se decorreria a seguir, lá estava eu, finalmente acomodada no transporte público. 

Estava tudo no meu colo, com exceção da sacola de compras que repousava ao meu lado, ultrapassando o limite do meu assento em um centímetro e doze milésimos. A música estava no último volume e minha expressão era a básica "não me irrite porque eu sou capaz de realmente te morder". Ao longe, avisto o hipopótamo.

Rindo alto, se apoiando na catraca, muito divertido ser amiga do motorista do transporte público. Ignoro, quem sabe se ela perceber que esse lugar em que me encontro é um buraco negro, ela fica longe. 

O papo tá bom mas tenho que ir depois, ela passa a catraca e quer sentar do meu lado, óbvio. Evito o contato ocular, confiando nas habilidades da minha Capa de Invisibilidade imaginária. Longos e tensos segundos se passam. Ela abaixa, certificando-se de que se encontrava no mesmo nível olhístico que eu e balbucia alguma coisa sobre sentar-se alí.

Esbarra em tudo que eu estava carregando e senta, já cumprimentando o infeliz que estava sentado na minha frente. 

- Nossa, mas eu conheço todo mundo nesse ônibus! (...)

Todo mundo menos eu, o Ceifador da Morte. Desintegre-se e acabe com essa agonia que você chama de vida. Argh.

(...) - Que você tá fazendo? 

Que será que ele tava fazendo né, pessoal. Malabares?

Algumas paradas depois, o animal repete todo o processo esbarracional para levantar-se e ir fazer mais amigos fora do ônibus, lá no quinto dos infernos.

Mas não acabou.

Mal tinha tido tempo para concluir o quanto eu gosto da minha própria companhia silenciosa, eis que surge a coisa mais gorda com poderes auto-locomotivos que você já teve o desprazer de imaginar na vida. Passa pela catraca e movimenta-se rolandamente direto para o meu lado. Senta-se esmagando até meus pensamentos homicidas com aquela massa planetária de teor gorduroso maior do que o do próprio óleo que também atende por bunda gigantesca. 

Mas o diâmetro bundal não era desgraça suficiente. O cheiro, minha gente. Ela fedia todos os odores que existem para serem fedidos. Era uma batalha perdida. Fiquei ali por um tempo, na esperança de que conseguiria vencê-la pelo cansaço (leia-se incomodá-la com a minha existência ocupando o espaço que suas banhas insistentemente tentavam dominar) - só que aí lembrei que gente que carrega mais de trezentas e vinte e cinco toneladas nos pés diariamente não perde a paciência fácil, especialmente se estiver sentada. Sobreviver àquela situação era preciso e fazer todo o esforço que ajeitar minhas bagagens para me levantar  era uma atitude requereria que deveria ser tomada imediatamente. Bati as sacolas nas cabeças de tudo quanto era criança remelenta e me mudei um pouco mais para perto das portas. Tive que ficar em pé durante o resto do caminho todo e tolerar as brisas do fedor alheio sempre que o ônibus virava para esquerda. 

Porque a gente morre asfixiado com o fedor alheio mas não morre sem lutar. 

3 de agosto de 2010

O trem

Lá estava estava eu, depois de considerável tempo sem contato com transportes públicos em geral, sentada solitária e silenciosamente indo de um lugar da cidade para o outro via trem.

O trem pára, as portas se abrem e a louca entra. A primeira impressão foi magnífica já que aparentemente a mulher estava berrando consigo mesma. Logo vejo, porém, que estava usando fones e que segurava o celular na mão. Pelo menos estava gritando com alguém

Um minuto de insanidade telefonística depois, ela finalmente finalizou a ligação - mas não sem antes pronunciar cada letra de todos os xingamentos que eu já conhecia e de mais alguns que passei a conhecer depois do episódio. Com o trem em movimento, ela levantou e andou em direção às portas. Socou as portas com ambas as mãos. Manteve a cabeça baixa por dois segundos e se virou para mim. "- Pronto, morri", pensei. Acho que na verdade ela não tinha nem sequer notado a minha presença até aquele momento:

"- Desculpa, acabei de terminar com o meu namorado" - ela disse, sentando-se novamente.

Sem comentários. 

As portas se abriram de novo. Duas meninas entraram e sentaram-se logo atrás da louca, um pouco mais para frente de onde eu estava. Mal sabiam o que estava por vir. 

Eis que um cara apareceu. Do fundo do vagão, direto para as duas meninas que tinham acabado de chegar.

"- E aí? O que vocês vão fazer hoje, mais tarde?" - falou ele, com aquele ar de azaração.

Antes delas terem a chance de responder, a louca disse:

"- Sai fora, cara. Elas não querem conversar com você"
"- Como você sabe se elas nem responderam ainda?" - ele retrucou.

Momento de tensão.

"- Ah é?! Meninas, vocês estão interessadas nesse idiota?" - indagou a louca.
"- Ah, ele parece gente boa" - disseram as meninas, contrariando os ensinamentos maternos de não falar com estranhos mentalmente instáveis.
"- Desculpa então, casem-se, tenham filhos e sejam felizes. Argh" - disse a louca, contrariada.
"- Bem feito. Cuida da sua vida" - respondeu o cara, perdendo uma ótima oportunidade de ficar calado.

Nessa hora a louca simplesmente levantou, e indo em direção a ele, gritava:

"- O quê?! Não, vem aqui. Eu vou quebrar a sua cara. Quem você pensa que é?! Eu vou QUEBRAR A SUA CARA!"

Empurrou, chutou e estapeou o infeliz - que justamente quando estava começando a reagir para dar uns tapas na mulher, foi parado por uns cinco outro homens que surgiram do além.

Mas homi que é homi não deixa barato. Um dos cinco, depois de ter separado a louca do primeiro idiota, virou para ela e, obviamente depois de muita reflexão disse:

"- Vai sentar, sua vadia doida. Você é louca!"

E foi aí, caros leitores, que choveu canivete. Fogo por todos os lados, infestação de insetos, tsunamis e furacões:

"- O QUÊ? EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FALOU ISSO! EU SOU UMA VADIA LOUCA?! EU VOU MOSTRAR PRA VOCÊ QUEM É A LOUCA!"

A mulher foi para cima do cara furiosamente, estapeando e socando a cabeça dele, enquanto os outros amigos assistiam, hesitantes - meio que entre se proteger de eventuais golpes e tentar ajudar o amigo. 

Contei que ela era meio gorda e tava com a metade da bunda aparecendo? Lindas imagens, viu pessoal. Definição de classe e elegância, sem dúvida.

A história termina com os caras descendo do trem, ainda xingando e sendo xingados. Depois que todas as portas estavam fechadas, o que tinha apanhado mais não conseguiu evitar de fazer uma última memorável aparição, batendo no vidro da janela e falando o que eu imagino terem sido lindas palavras.

O silêncio estabelecido assim que o trem entrou em movimento foi provavelmente a parte mais constrangedora da coisa toda. A louca sentou, respirou fundo e virou-se para as meninas, que mal se mexeram durante o barraco:

"- Eu tenho dois filhos, sabe. Não costumo ser assim violenta".

Assim violenta, não. Só uns chutes esporádicos na cara de pessoas aleatórias.



Moral da história: Evite dizer que pessoas loucas são loucas.

18 de março de 2009

O dia em que choveu o mundo

O transporte público. Lembram-se de quando eu disse que era assunto pra um post específico? Pois então, estava enganada. Transporte público é assunto pra um blog inteiro específico. O que eu pretendo aqui é narrar apenas um episódio. O episódio.

Minha relação com o monstro começou tímida. Ônibus e metrô(s?) sempre fizeram parte de um mundo paralelo e místico dentro da minha cabeça. Baldeação, bilhete, terminal - só de ouvir essas palavras o meu cérebro entrava em colapso. Eu simplesmente não entendia. Não que agora eu entenda, mas dentro da minha concepção, você sabe que virou uma pessoa-que-anda-de-transporte-público quando alguém te pede informação sobre ele e você sabe informar. E eu já soube informar.

Entrei na vida transporte público esse ano, e de fato, não é muito complicado - isso considerando que eu preciso pegar só um trólebus e descer no ponto certo, todo dia. Mas essa semana, ah, essa semana. Essa semana choveu o mundo, minha gente. E eu estava lá, pisando da lama.

Saí de casa eram 17h20. A chuva já tinha passado e eu só precisava chegar na escola às 19h. O percurso normalmente leva 40 minutos. Cheguei no terminal e as pessoas estavam todas aglomeradas antes da catraca, tentando entrar. Nunca tinha visto nada como aquilo.

Ao me deparar com a cena do povo já se cotovelando ali, pensei: "- Bom, hoje eu vou morrer". Foi uma hora só esperando o primeiro trólebus CHEGAR. A situação dentro dele era indescritível. Só se viam braços, punhados de cabelo, bolsas. Aquele vidro embaçado, aquelas barrigas pressionadas contra as portas, aquele inferno. "- Bom, ele vai passar reto, não tem condição nem de um raio ultravioleta entrar nesse negócio". Mal tinha terminado de formular esse pensamento quando abriram-se as portas do trólebus.

Nesse ponto eu pude entender o que significa o instinto de sobrevivência do ser humano. Uns puxando os outros, outros empurrando os uns, cotoveladas e batidas de cabeça - tudo isso para entrar no ônibus onde nem uma onda eletromagnética conseguiria passar. E o mais incrível? Muita gente entrou. E é sério, MEIA gente entrar naquele ônibus já seria um fato digno de aplausos. As portas foram fechadas e o trólebus em questão não saiu do lugar por vinte minutos contados no relógio.

Eu não estava ouvindo os barulhos absurdos dessas cenas descritas porque fiz questão de ouvir minha música calma e relaxante no último volume, mas nos segundos de troca de música o som predominante era os das buzinas dos carros das redondezas, também parados, e os das velhas indignadas porque o motorista não esperou mais tempo antes de fechar as portas (!).

Já eram quase sete horas da noite quando liguei para a escola, avisando que ia (morrer) me atrasar. A cena do instinto de sobrevivência se repetiu algumas vezes - as pessoas não pareciam parar de aparecer, pelo contrário. Esperei. Sinceramente não me lembro qual foi o parâmetro de avaliação que foi usado quando decidi entrar em um. Realmente não estava tão cheio quando eu entrei, mas as pessoas não paravam de entrar. Nunca mais. Uma eternidade depois, fecharam-se as portas. Foram mais 15 minutos parada dentro do terminal, sem nenhuma perspectiva de movimento - nem minha, nem do ônibus. Imóveis, todos.

Quando finalmente o trólebus andou, foi o suficiente apenas para sair do terminal. Nem sei quando tempo se passou. Eu tinha uma aula às 19h, que já não tinha conseguido chegar, e uma outra que começaria às 20h. Eram quase 19h30 quando olhei para o lado. Parado atrás do trólebus em que eu estava, tinha outro. Para o mesmo lugar. E vazio. "- Desaforo, só pode ser. Não, isso é impossivel. Pra onde foram todas aquelas pessoas? Eram fruto da minha imaginação assim como essas que me espremem aqui agora? Ou foram sugadas pelo mundo, uma vez que já desempenharam sua função de me aterrorizar apenas pelo fato de existirem em tamanha quantidade?".

Depois de passado momento de fúria, bradando contra o mundo e suas conspirações, concluí que nunca na vida achei que fosse me alegrar tanto com uma visão daquelas - a de um ônibus vazio. "- Preciso sair daqui, e é pra lá que eu vou. Custe o que custar. Se é pra esperar até o último minuto da vida, vou esperar sentada".

Não tinha bilhete para entrar em outro trólebus, mas eu sabia que dentre aquelas 937 pessoas alguém havia de ter. Pausei a música com certa dificuldade para alcançar o botão e perguntei pra geral se alguém tinha um bilhete para me vender. Achei uma mulher e peguei o dinheiro que estava na carteira, dentro da mochila gigante que eu carregava (não vou nem comentar como foi o processo).

- Só que eu não tenho troco - a mulher disse.
- Qualquer coisa pra sair desse inferno - resumi pra ela, em resposta.

Saí, entrei no outro ônibus, cheguei na escola e as aulas estavam todas canceladas. Fim.

Atualização: Tudo bem que o comentário recebido não foi dos mais educados, mas de qualquer modo, segundo o Michaellis, o nome do transporte público em questão é trólebus. Corrigido está.