Em uma das minhas muitas idas ao supermercado, recentemente, eu estava me sentindo meio incomodada. Uma parte de mim tentava, silenciosamente, descobrir qual era o problema, enquanto outra simplesmente ignorava o que acontecia ao redor, concentrada na escolha de limões.
De canto de olho, avistei o motivo da minha inquietação passando de um lado pro outro das bancas de frutas, correndo como se a vida dele dependesse disso. O molequinho vestia uma camiseta verde e tinha aquela clássica cara de "vou tocar o terror nesse supermercado e ninguém vai me impedir a não ser que a minha mãe consiga me pegar".
Minha primeira reação foi tentar achar a mãe do cidadão. Ela não estava muito longe - apenas longe o suficiente para que sua prole da Tasmânia se sentisse fora de risco de bronca. Deu pra indentificar mãe do animalzinho certeiramente porque ela foi a única que, ao percerber uma agitação estranha no ambiente, só deu uma olhada pesarosa pro filho louco, virou as costas e continuou o que tava fazendo.
Olhei de volta pro moleque e ele tinha um carrinho em posse. Carrinho de supermercado comum: barulhento, grande, fora de controle. Claramente, o que aconteceu foi que ele saiu pilotando aquela arma dosinferno com toda a experiência e capacidade que se esperaria de uma pessoa daquela idade e tamanho. Bateu o carrinho em tudo que se encontrava em volta, forte.
A barulheira tava começando a ganhar mais intensidade quando de repente parou. Eu já tinha desistido de prestar atenção no que o menino tava fazendo porque não queria ser considerada cúmplice. Foi o silêncio súbito que chamou minha atenção de novo.
O velhinho uniformizado com as cores do supermercado, cabeça branca e um carrinho cheio de frutas frescas para repor (velhinho este que até então era só figurante na história) agora apontava pra cara do moleque, de pertinho. A mãe do menino se aproximou da cena rapidinho, mas não falou nada.
"- Você vai acabar se machucando e indo pro hospital se não parar de fazer baderna*. Não quero ouvir moleque nenhum chorando aqui", disse o velhinho mirando na ALMA do pivete. (*"baderna" sendo o termo mais provável que um vô usaria em português para dar bronca em crianças aleatórias. Minha vó também usa "anarquia").
A expressão no rosto do menino era impagável. Dava pra ver o cérebro dele gravando aquele episódio inteiro na pasta "Memórias Eternas". A mãe olhava pro velhinho com agradecimento nos olhos enquanto apertava o ombro do moleque com uma mão só.
O salvador da pátria falava meio baixo e por isso eu não ouvi o final do esculacho, mas no final, quando mãe e filho caminhavam em direção aos caixas, ouvi ela rosnar pro moleque: "Que vergonha que você me fez passar, sinceramente".
Sem dúvida, daqui a alguns anos esse menino estará por aí contando essa história pros amigos. Se não tiver virado serial killer de velhinhos funcionários de supermercados, obviamente.
Vocês já levaram bronca de um desconhecido? Me contem nos comentários!
Poxa, que esporro esse pivete tomou, fiquei imaginando a cena toda HAUHAUHAUHAUHAUAHAUHAUHAUHA
ResponderExcluirE não lembro de ter tomado bronca de ninguém além da minha mãe, professores e diretores. agora levar bronca de desconhecido deve ser constrangedor.
Ótimo post, Cíntia.
Beijos.
Só consigo lembrar da bronca que levei quando tentei passar um trote e fiquei no fone, escutando todo tipo de combinações de palavrões, ofensas e sermões. Meio rindo, meio chocada. Muito surreal este dia.
ResponderExcluirConvenhamos que supermercado é fetiche de qualquer criança.Carrinhos que dão pra servir de transporte,longos corredores om preteleiras abarrotadas de chocolate e gingantes com olhar perdido.Quem nunca se imaginou ficando preso e passando uma noite no supermercado tocando o terror e se entupindo de sorvete?Bem,eu já.Quando era criança fazia de tudp para me perder em ambientes públicos, e uma vez consegui isso num shoping,achei de mais UAU!E ainda veio um estranho e me deu uma ficha para um brinquedo do playground.Que perigo!
ResponderExcluirSupermercado tb pode ser o terror dos pais que não têm com quem deixar a prole.Pra criança é país estrangeiro,cheio de coisas para explorar e testar os seus limites.UAU radical!Que bobagem...tesc
Bem,vc pediu pra comentar :/
O menino vestido de verde hulk provavelmente aprendeu que pode ser perigoso peripécias inconsequentes e que sempre esxiste alguém para aparar as arestas de nossa personalidade.
Adorei o post. Já sim, várias vezes. Outro dia estava eu no meu curso de libras tomando coca-cola. Já estava quente e eu não queria mais. Hoje penso 'MAS POR QUE DIABOS EU FIZ ISSO???? ', mas na hora foi automático: despejei todo o restante do veneno mais gostoso do mundo no chão, quase na rua. O síndico virou bicho, levei a maior bronca, fiquei mooorta de vergonha. Por sorte minha mãe tava lá pra me defender, mas foi uma experiência vergonhosa :S
ResponderExcluirDe desconhecido não, sempre levava bronca (eu e meus amigos) de uma tiazona da rua, sempre que nos reuníamos na rua, e quando jogávamos futebol, um velhote nos corria no laço! E olha que o campo que jogavamos nem era dele...
ResponderExcluirhehehe
Poutz, a minha vida toda eu ralei pra me comportar, pra fazer tudo certinho, mas ja tomei bronca de desconhecido e é a pior sensação do mundo, quer dizer uma das. Nossa tipo vc fica procurando em quem se agarrar para se proteger daquela criatura maldosa que não gostou do que voce fez e por isso acha que deve te punir jogando a vergonha nos seus ombros. MT ruim. Nossa geralmente eu não leio textos na net, aqui é tudo mt rapido, mas eu parei para ler o seu isso qr dizer q é bom de mais :D, se não se importa vou ler mais. Fuis
ResponderExcluirjáa, hahaha. Peguei a carta da caixa de correio de um Sr. aqui da minha rua e ele viu :( aah, adorei teu blog e o vlog também! Acho que vou pra Vancouver em janeiro, e meew, também quero me formar em tradução. Tô fazendo letras francês na UFSC. "Moras" aonde no Brasiil? ;D
ResponderExcluirAh, esses moleques serelepes (adentrei ao vocabulário 'avorístico') são de querer arrancar as tripas e amarrá-las aos braços e pernas, a fim de NUNCA mais terem a oportunidade de sair por aí fazendo baderna. BEM FEITO PRO PIVETE!
ResponderExcluirAgora, eu nunca fui de levar broncas em público, pois eu era uma criança decente e com bons modos (na verdade, eu era daquelas crianças chatas, metidas a CDF, que se acham muito superiores para ficar sendo chamadas a atenção... às vezes era eu que dava bronca na minha mãe, mas não vem ao caso). De desconhecidos, acho que nunca.
Ótimo texto! Você é muito boa, sério :)
Quando pequeno, uma vez eu levei bronca de um guardinha do metrô porque eu quis subir a escada rolante que descia. Meu pai deixou porque a estação estava bem vazia e não tinha ninguém na escada. O guarda veio dar bronca e o meu pai, mesmo sabendo que estava errado, começou a bater boca com ele. Depois ele me pediu para não fazer mais isso, mas o fato ter me defendido de um estranho mesmo sabendo que eu estava fazendo "baderna" contou muitos pontos para mantê-lo no patamar "meu pai, meu herói". :)
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