Era o intervalo da aula e eu decidi ir até o mercado próximo ao prédio em que eu estudo comprar alguma coisa pra comer. Se eu tivesse ficado um minuto extra escolhendo a salada, não teria passado pelo que vou contar pra vocês.
O caminho de volta é curto, então quase que imediatamente após minha inocente saída do mercado, eu avistei a cena que em breve se tornaria parte da minha vida. Primeiro senti angústia, depois uma fisgada na minha veia cômica e logo em seguida, empatia com uma pitada de dó. A conclusão de todos esses sentimentos foi pura e simples: "se eu começar a olhar para o chão nesse exato momento, me tornarei invísivel e sairei intacta". Ledo engano.
Tratava-se de uma velhinha de cabeça branca e sobrancelha pintada de azul parada na frente da porta do prédio da faculdade que, naquele momento, representava apenas uma memória do mundo como eu o conhecia antes. A velhota tava claramente perturbada e parecia prestes a chorar. O motivo do desespero não ficou claro até que cheguei perto o suficiente para ver que, enroscada nos tornozelos ligeiramente fósseis dela, estava uma calcinha.
Horror. Comecei a suar frio porque a velha olhava pra mim com a mão estendida em pedido de ajuda e eu não simplesmente não tinha como fugir. "Quanto tempo será que ela já está andando com essa tenda de circo enrolada nas pernas, como é possível uma calcinha simplesmente cair da bunda de uma pessoa, será que eu estou pronta pra ver qualquer tipo de conteúdo que esse pedaço de pano malígno possa conter, se eu não parar pra ajudar quanto tempo será que essa velha ainda tem DE VIDA pra esperar por uma pessoa melhor que eu, por que diabo eu simplesmente não trouxe alguma coisa pra comer de casa" - pequeno exemplo das novecentas mil coisas que se passaram pela minha cabeça. Nisso, a velhinha já tava me explicando o que tinha acontecido há algum tempo e eu não tinha ouvido nem uma palavra depois do "help". Basicamente, ela estava andando e a calcinha caiu (!).
Abaixei. Segurei a calcinha branca (ufa, pelo menos não era amarela cor de bexiga não funciona há quinze anos) e olhei pra cima: "A senhora quer que eu tire ou puxe pra cima?", perguntei idiotamente porque ninguém me faria puxar aquele prévia de inferno pra cima. "Tira, por favor", ela respondeu se apoiando nas minhas costas. Contando essa história aqui eu ainda não consigo acreditar que realmente parei para resolver uma situação desse nível. O estado de nó em que aquela coisa se encontrava não dá pra ser explicado cientificamente e o motivo de eu estar de joelhos no meio da rua tentando ajudar devia ser desenhado na parede de alguma caverna pra ver se as civilizações futuras conseguem entender.
Tirei a calcinha da velha guiando os pés dela pra fora do nó enquanto ela se segurava em mim e o Apocalipse começava ao nosso redor. O esforço para não demonstrar muito radicalmente o repúdio que eu sentia por estar segurando propriedade íntima de uma velhinha aleatória foi grande, mas entreguei a calcinha de volta pra ela com o melhor sorriso de compreensão que consegui projetar. Ela sorriu de volta constrangida e me agradeceu, se preparando para voltar a caminhar sabe-se lá pra onde.
Sem calcinha.
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| eu tirei a calcinha de uma velha no meio da rua |