20 de abril de 2012

A velha sem calcinha

Era o intervalo da aula e eu decidi ir até o mercado próximo ao prédio em que eu estudo comprar alguma coisa pra comer. Se eu tivesse ficado um minuto extra escolhendo a salada, não teria passado pelo que vou contar pra vocês.

O caminho de volta é curto, então quase que imediatamente após minha inocente saída do mercado, eu avistei a cena que em breve se tornaria parte da minha vida. Primeiro senti angústia, depois uma fisgada na minha veia cômica e logo em seguida, empatia com uma pitada de dó. A conclusão de todos esses sentimentos foi pura e simples: "se eu começar a olhar para o chão nesse exato momento, me tornarei invísivel e sairei intacta". Ledo engano.

Tratava-se de uma velhinha de cabeça branca e sobrancelha pintada de azul parada na frente da porta do prédio da faculdade que, naquele momento, representava apenas uma memória do mundo como eu o conhecia antes. A velhota tava claramente perturbada e parecia prestes a chorar. O motivo do desespero não ficou claro até que cheguei perto o suficiente para ver que, enroscada nos tornozelos ligeiramente fósseis dela, estava uma calcinha.

Horror. Comecei a suar frio porque a velha olhava pra mim com a mão estendida em pedido de ajuda e eu não simplesmente não tinha como fugir. "Quanto tempo será que ela já está andando com essa tenda de circo enrolada nas pernas, como é possível uma calcinha simplesmente cair da bunda de uma pessoa, será que eu estou pronta pra ver qualquer tipo de conteúdo que esse pedaço de pano malígno possa conter, se eu não parar pra ajudar quanto tempo será que essa velha ainda tem DE VIDA pra esperar por uma pessoa melhor que eu, por que diabo eu simplesmente não trouxe alguma coisa pra comer de casa" - pequeno exemplo das novecentas mil coisas que se passaram pela minha cabeça. Nisso, a velhinha já tava me explicando o que tinha acontecido há algum tempo e eu não tinha ouvido nem uma palavra depois do "help". Basicamente, ela estava andando e a calcinha caiu (!).

Abaixei. Segurei a calcinha branca (ufa, pelo menos não era amarela cor de bexiga não funciona há quinze anos) e olhei pra cima: "A senhora quer que eu tire ou puxe pra cima?", perguntei idiotamente porque ninguém me faria puxar aquele prévia de inferno pra cima. "Tira, por favor", ela respondeu se apoiando nas minhas costas. Contando essa história aqui eu ainda não consigo acreditar que realmente parei para resolver uma situação desse nível. O estado de nó em que aquela coisa se encontrava não dá pra ser explicado cientificamente e o motivo de eu estar de joelhos no meio da rua tentando ajudar devia ser desenhado na parede de alguma caverna pra ver se as civilizações futuras conseguem entender.

Tirei a calcinha da velha guiando os pés dela pra fora do nó enquanto ela se segurava em mim e o Apocalipse começava ao nosso redor. O esforço para não demonstrar muito radicalmente o repúdio que eu sentia por estar segurando propriedade íntima de uma velhinha aleatória foi grande, mas entreguei a calcinha  de volta pra ela com o melhor sorriso de compreensão que consegui projetar. Ela sorriu de volta constrangida e me agradeceu, se preparando para voltar a caminhar sabe-se lá pra onde.

Sem calcinha.

eu tirei a calcinha de uma velha no meio da rua

15 de abril de 2012

Deixe um comentário!

Outro dia eu tava no banho (?) e o seguinte pensamento invadiu o meu ser: "por que eu não respondo os comentários do blog com mais frequência?" Resposta: Não sei.

Venho por meio deste post, portanto, comunicar-vos-lhos que vou começar a responder os comentários que vocês me escrevem aqui. Acho que desse jeito a interação fica mais dinâmica e o ato de "deixar comentários" se torna mais interessante por saber que respostas serão dadas. Desse jeito, dá pra desenvolver mais os assuntos dos posts, responder diretamente perguntas legais que recebo, conhecer melhor meus leitores e de quebra, incentivar mais visitas ao blog.

Boa ideia né, Brasil? Não sei por que não pensei nisso antes. Obviamente - e já vou aproveitar pra deixar o aviso e evitar reclamações - nem sempre vai dar pra responder tudo. Mas vou tentar. Acho mesmo que vai tornar toda a experiência mais completa e mais legal. Isso que importa.

Tá bom? Então tá! A gente se fala nos comentários!


12 de abril de 2012

Dicas rápidas de Inglês

Vocês costumam pedir pra eu postar mais dicas de inglês e, apesar de eu sempre tentar prestar atenção nas particularidades do idioma no meu dia a dia aqui, fica cada vez mais difícil pegar curiosidades que façam parte de um tema - aos poucos eu estou me acostumando com o jeito nativo de falar. Então, eu vou postar as (numerosas) quatro expressões que consegui anotar desde a última vez em que escrevi um post de dicas de inglês *plus* a inacreditável quantia de duas palavras aleatórias (mas interessantes) que lembrei essa semana. Vamos lá.

"It's a no-brainer" - Significa basicamente que a tarefa ou assunto em questão é fácil. Tipo até uma pessoa sem cérebro conseguiria fazer. Sempre que ouço é num contexto de empresa/trabalho, mas serve pra outras situações também.

"Wear your heart on your sleeve" - Essa expressão é muito usada em letras de música e filmes românticos. Tem a ver com ser vulnerável, viver intensamente, deixar seus sentimentos "à flor da pele".

"No worries" - Acho que dá pra dizer que esse é o jeito mais comum de responder um "thank you". Na escola,  a gente aprende a dizer "You're welcome", mas "no worries" é muito usado aqui, principalmente em situações informais.

"Cheers" - A expressão ficou mais famosa por causa da música da Rihanna com a Avril Lavigne, mas é usada em diferentes situações com diferentes significados. No caso da música, é o básico "tim-tim" ou "saúde" que a gente fala antes de beber. "Cheer" também pode significar "torcer" (pra time, pessoa, causa etc) e vira phrasal verb se combinado com certas preposições (e aí são mais um milhão de significados). Mas o uso mais legal e diferente é sinônimo de "thanks". O povo aqui sempre fala ao receber comida num restaurante, ao pegar o troco num posto de gasolina e esse tipo de coisa. 

E agora as palavras aleatórias:

"Power of attorney" - significa "procuração". Eu aprendi isso na faculdade de tradução e por algum motivo que desconheço, nunca mais esqueci.

"Cutlery" - significa "talheres". Demorei MUITO tempo pra memorizar essa palavra. Sempre tinha que explicar que tava falando de garfos, facas e colheres (fazer mímica, desenhar, tocar um pandeirinho). Agora finalmente aprendi então aprendam também, seus coiso.

5 de abril de 2012

Inglaterrino?

Meu querido ser hermano resolveu vir aqui pra Toronto, visitar por duas semanas. E o que acontece é mais ou menos isso:

Minha irmã - Nossa Cintia, olha o sapato daquela mulher! (era horrível)
Eu - Credo, que coisa horrível!
Minha irmã - Deve ser da Inglaterra.
Eu - Da Inglaterra?? Como você sabe?
Minha irmã - Ah, o cara que tá com ela tem jeito de inglaterrano. Inglaterrino. Inglaterro?

...


2 de abril de 2012

5 coisas que você precisa saber se quer ter uma banda

(Esse texto foi um exercício de pesquisa e entrevista que eu tive que fazer para minha faculdade. Traduzi e fiz umas modificaçõezinhas para publicar aqui porque é um assunto legal que pode ser interessante pra vocês ou pra alguém que vocês conheçam!)

Se você sonha em ser músico, com certeza já se imaginou tocando num palco gigante, sendo o centro das atenções e ganhando um bom dinheiro só pelo fato de estar lá, né? Bom. Eu falei com pessoas que não só fazem isso, como também sabem de todas as coisas que acontecem nos bastidores (aquelas, que ninguém inclui nos sonhos).

1 - Música é comunicação. Seja criativo.

Escreva sobre sua própria experiência. Para produtores como Paulo Anhaia, é muito chato receber fitas demo com músicas que são todas iguais; e ele recebe dessas diariamente. "Você precisa ter alguma coisa pra dizer. Só assim vai conseguir se comunicar com a pessoas, fazer com que elas entendam a sua mensagem e aí realmente receber algum tipo de retorno", Paulo diz. De acordo com a experiência dele, bandas novas tendem a esquecer de se expressar por meio das músicas que escrevem. "As pessoas estão focadas demais em fazer sucesso em vez de fazer música de verdade. O resultado nas letras - e no geral - acaba sendo medíocre". 

E quem é que gosta de ouvir a mesma história um milhão de vezes? Encontre inspiração! Fale com os outros e se informe sobre o que está acontecendo ao seu redor. Escrever letra de música é escrever

Paulo Anhaia - músico, produtor muscial e engenheiro de som
2 - Defina o seu som

Não tente copiar o som de outras pessoas, especialmente se o tal som estiver na moda. "Pessoas que se arriscaram no mundo da música foram também as mais bem sucedidas", Paulo diz. "A questão é que quando você finalmente tiver a chance de tocar alguma coisa que esteja na moda hoje, essa 'alguma coisa' não estará mais na moda. Lembre-se sempre de que as pessoas que chegam em segundo nunca têm o mesmo impacto das que chegaram primeiro".

Chris Murphy, vocalista da banda canadense Sloan, falou sobre esse assunto também: "Nós definitivamente nunca pensamos em ser comerciais. Éramos todos estudantes e música pra gente era diversão". As influências de Sloan, no começo da carreira. eram o Punk Americano e o Pop Britânico. "O que aconteceu com a nossa banda foi que o Nirvana se tornou muito popular em 1991. Bem naquela época, estávamos começando a gravar na formação que somos hoje. Quando a indústria começou a procurar outras bandas pra copiar aquele tipo de som, já estávamos prontos". Rapidamente, porém, muitos grupos com o mesmo estilo que o Nirvana começaram a aparecer. "Era como se fosse um clube que todos podiam entrar. Queríamos sair imediatamente", disse Chris.

3 - Assuma o comprometimento com a sua banda

Quem pensa em começar uma banda pelos motivos certos, pensa em longevidade. As pessoas na sua banda podem ser completamente diferentes de você, mas é importante que exista química entre todos os integrantes do grupo pra coisa funcionar. Como parceiros ou sócios em qualquer outro negócio, vocês precisam confiar uns nos outros e fazer sentido juntos. "Nós somos de Halifax [cidade na província de Nova Scotia, Canadá]. Quando o nosso baterista Andrew resolveu se mudar para Toronto, foi difícil lidar com a distância. A banda quase se separou naquela época", diz Chris, admitindo que aquele foi um dos piores momentos de sua carreira. "A gente ficou tipo 'bom, talvez a solução seja arranjar um novo baterista', mas eu odiava a ideia. Eu preferia começar tudo de novo do que mudar o baterista. Mesmo que a banda se tornasse muito melhor com outro músico, eu sempre sentiria falta do jeito que as coisas eram originalmente".

Sloan (Chris Murphy à frente)
Até a decisão de se juntar ou não a uma banda deve ser um processo bem pensado, pois se trata de um comprometimento sério que você precisa ter certeza que conseguirá manter. Claudia L., pianista e cantora há mais de vinte anos, disse que teve diversas oportunidades de entrar em outras bandas, mas escolheu não o fazer. "Eu queria me dedicar à minha família e, viajar por semanas ou até meses era uma coisa que simplesmente não dava pra fazer". Claudia e o baterista Lucio F. se casaram quando ainda bem jovens e a decisão de começar uma banda própria veio logo. Desde então, ambos trabalham na indústria musical, principalmente em eventos de empresas e casamentos.

"Converse muito bem com a sua namorada ou namorado antes de entrar numa banda. Ela(e) deve entender que você precisará dedicar grande parte do seu tempo ensaiando e estudando", Lucio aconselha. "Um amigo meu, muito talentoso, chegou num ponto em que teve que escolher entre a música e a namorada. Ele escolheu a namorada. Até hoje eu me pergunto se ele acha mesmo que tomou a decisão certa".

4 - Fale sobre dinheiro antes que os números fiquem grandes

Não dá pra saber com certeza se todos os seus esforços vão resultar num contrato milionário com uma gravadora famosa, mas se isso acontecer, você e sua banda precisam estar preparados. Chris recomenda que você faça como a banda dele faz: "Como um grupo, a gente sempre separou o dinheiro por igual, independentemente do quanto cada um contribuiu pra determinada música. Assim, quando uma das músicas é bem sucedida, todo mundo ganha a mesma coisa. É um incentivo pra longetividade, mesmo. Nosso empresário nos ensinou assim desde o começo e funciona". Ele acrescenta "Todo término de banda tem a ver com um cara só ganhando todo o dinheiro e os outros ficando ressentidos".

Na opinião de Lucio, quer vocês decidam dividir o pagamento por igual ou não, é uma conversa que precisa acontecer antes do dinheiro estar em mãos. "Porcentagens devem ser discutidas logo que a banda começa. Eu acho que se algumas pessoas no grupo têm funções especiais, elas devem ser compensadas com uma porcentagem maior do dinheiro. Cada um tem interesses diferentes e, se vocês esperarem receber para depois decidirem como dividirão o dinheiro, vocês podem entrar numa briga que pode levar até ao rompimento da banda".

Lucio (bateria, flauta tranversal e violão) e Claudia (teclado e voz)
5 - Sempre mantenha bons relacionamentos

Todo mundo que passa pelo seu caminho é essencial. Pessoas importantes da indústria estarão sempre observando e saberão se sua banda é confiável, competente e profissional. Beber e se envolver com drogas, por exemplo, podem não ser as melhores escolhas a fazer. Entrar nesse negócio por causa de toda a pegação que você acha que vai acontecer nos camarins dos seus shows também não é um bom motivo pra se dar ao trabalho de virar músico. "Se o objetivo é só parecer 'descolado' pra impressionar mulher, compre um carro caro e fique fora do ramo musical", diz Paulo.

Acima de qualquer coisa, mantenha uma relação legal com os integrantes da sua banda. Obviamente, problemas aparecerão e é muito provável que vocês briguem de vez em quando. Mas é possível manter um equilíbrio e fazer as coisas funcionarem. Mesmo depois de vinte anos, dez álbuns e 179 músicas lançadas, Chris diz que os quatro integrantes de Sloan ainda têm suas diferenças e desentendimentos. "A coisa mais importante pra mim é que nós quatro ainda estamos na banda. São as nossas caras que estão na capa dos nossos álbuns e é uma fórmula composta por todos os quatro que vendemos. A gente nem se dá bem, pra falar a verdade. Eu acho que isso nos torna mais interessantes que outras bandas. Bom, nós somos minha banda favorita... Minha banda é ótima". 

Então para todos vocês futuros rockstars, tenham em mente que música é um negócio fantástico e uma forma de expressão incrível. Sim, envolve muito (muito) trabalho - mas você vai ter que se acostumar com isso. No dia em que você estiver num palco e as pessoas começarem a cantar sua música junto com você pela primeira vez, elas farão isso porque você tá lá cantando e tocando de coração. E vai ser a melhor experiência que você já teve na vida. Enquanto isso não acontece, passe menos tempo pensando em ficar famoso. Concentre-se no seu próprio talento e trabalho, que um dia você chega lá. ROCK ON!


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