Aviso: Esse post é pra ser lido cuidadosamente. Se não existe tamanha disposição dentro de você agora, nem leia o que escrevi e evite a minha fadiga de ter que ficar explicando cada vírgula porque eu simplesmente não estou com paciência pra burrice e interpretação de texto porca.
Não é novidade nenhuma que noticia hoje em dia viaja mais rápido do jamais viajou. Tento acompanhar a velocidade das mudanças da melhor forma possível. Junto com a evolução da internet também veio um espaço cada vez maior para a dita "liberdade de expressão". Todo mundo tem acesso à informação instantânea e todo mundo expressa opiniões tão rápido quanto a informação chega. Até aqui tudo bem.
O que tem gritado na minha cara e me enlouquecido ultimamente sobre essa história toda é que a superficialidade das pessoas parece ter sido elevada a milésima potência. Graças à todas as fontes de informação disponíveis hoje em dia, temos oportunidade de saber de muito mais coisas e isso é ótimo na teoria. Na prática, muita gente vive de manchete e simplesmente não se dá ao trabalho de saber mais do que está acontecendo - o que não seria tão ruim se essas mesmas pessoas se resumissem ao que sabem na hora de dar opinião.
Steve Jobs morreu essa semana e de repente todo mundo, de celebridades internacionais aos inúmeros zé ninguéns do Twitter, resolveram expressar os profundíssimos sentimentos sobre o cara. De todas as incontáveis declarações que vi por aí, acho que só umas três vinham de pessoas que já tinham expressado qualquer pensamento sobre as contribuições de Steve Jobs para a tecnologia antes. Enquanto só se falava disso na internet, passou uma reportagem na televisão sobre o julgamento de Conrad Murray, médico pessoal de Michael Jackson. No jornal, divulgaram a gravação do Michael Jackson sob efeito de um monte de remédios, conversando com o médico por telefone sobre os planos pra turnê que estava prestes a começar, sobre o quanto ele sentia pelas crianças que assim como ele não tiveram infância e sobre querer abrir um hospital para crianças. Foi triste de ouvir.
Eu sempre gostei muito do Michael Jackson pelo talento absolutamente inegável que ele tinha. Quando soube da morte dele, fiquei mal. Foi a primeira vez que me senti triste de verdade com a morte de alguém famoso. Hoje, pouco mais de dois anos depois, o sentimento não mudou. Quando penso nisso sinto a mesma coisa que senti quando soube da morte.
Foi pensando nesse sentimento que caiu minha ficha sobre a superficialidade das pessoas. Eu lembro que na época da morte do Michael Jackson todo mundo fez questão de mostrar o quanto gostava do dele, o quanto valorizava suas contribuições ao mundo da música, o quanto respeitava a vida dele, o quanto nunca tinha acreditado nas acusações de pedofilia e assim por diante. Hoje em dia, mesmo tão pouco tempo após sua morte, o povo trata da notícia como se fosse velha. Agora quem morreu foi Steve Jobs, então dá-lhe a internet inteira prestando homenagens e falando do cara como se ele fosse a única pessoa responsável pela tecnologia que temos hoje.
Independentemente de quão importante o Steve Jobs realmente foi para a tecnologia e para o mundo de modo geral, a impressão que dá é que as pessoas só estão falando tanto sobre ele agora porque ele morreu há três dias e portanto esse é o assunto da vez. É óbvio que tem gente se sentindo assim como eu me senti quando soube da morte do Michael Jackson, mas não toda essa gente. E outra: por que todas essas pessoas não prestaram homenagens e expressaram o quanto acham que o Steve Jobs foi um gênio enquanto ele estava vivo? Porra. A gente vive no século vinte e um, estuda artistas, cientistas e filósofos que só ganharam reconhecimento depois que morreram e acha absurdo. Por que não simplesmente mudar isso e passar a valorizar os gênios enquanto eles vivem?
Mas esse não é o assunto que eu vim aqui pra tratar. A verdade é que muitas dessas pessoas que estão por aí dizendo que choraram quando souberam que o Steve Jobs morreu só querem mesmo é fazer parte do ~grupo~ e, pra isso, sabem têm que comentar sobre o assunto certo, o mais rápido possível e de preferência com as opiniões certas (porque afinal, discordar das coisas ultimamente é pedir pra ser crucificado).
Essa que é a merda. Até onde vai essa coisa das pessoas quererem provar ser algo que não são? Saber de coisas que não sabem, ter interesse por coisas que não têm? Que saco. Vejo esse tipo de coisa tão frequentemente e em tantas ocasiões diferentes que às vezes me pergunto se é mesmo possível que só eu perceba a babaquice que é ficar tentando o tempo inteiro ser algo que você não é. Qual é a dificuldade em gostar do que você gosta e não do que os outros acham que você tem gostar? Qual é o problema em simplesmente não se interessar por determinado assunto e não ter uma opinião formada sobre ele? Qual é o problema em falar do que você quer falar e não do que "é o que todo mundo tá falando então melhor eu falar também"?
Pensem um pouco.