No momento em que entrei no McDonald's já percebi que tinha alguma coisa estranha acontecendo.
Caminhei meio hesitante em direção ao balcão, tentando entender o que se passava sem demonstrar sinais muito óbvios daquele desespero que sempre dá quando a gente percebe que chegou no meio do barraco.
Tinha um velho bem velho falando mais alto do que precisava e um cara com todas as características que alguém precisa ter pra parecer instantaneamente babaca, olhando para o chão e, obviamente, não tomando providência alguma em relação ao velho descontrolado.
Como os dois ainda estavam em frente ao caixa, não dava pra eu fazer o meu pedido. Me posicionei como "próxima" e esperei. O velho calou-se enquanto examinava meticulosamente o conteúdo da bandeja à sua frente. Pegou a garrafinha de leite (líquido este que eu nem sabia que era comercializado no supracitado restaurante) e abriu. Tomou um gole e fez cara de quem avalia. Tossiu e disse:
- Esse negócio tem açúcar, não acredito que tem açúcar sendo que eu pedi sem açúcar. Não posso com açúcar.
- Pai, vai ficar tudo bem, não é muito açúcar - respondeu o homem com cara de babaca.
- A diabetes é em mim não em você e você não sabe se vai ficar tudo bem, na verdade já te digo agora que não vai ficar tudo bem. Não posso com açúcar.
Chegou o atendende e o velho virou-se pra ele, chacoalhando a garrafinha de leite.
- Esse leite tem açúcar e eu pedi sem açúcar! Por que vocês colocam açúcar no leite de vocês?!
- Senhor, eles entregam o leite assim. Próximo. - disse o atendente, seco. Sabe-se lá quanto tempo já fazia que ele tava aguentando aquilo.
Antes de eu conseguir pegar fôlego para pedir minha comida, o velho pediu pra falar com o gerente. O atendente sumiu por uns momentos, voltou e disse:
- O gerente está muito ocupado, desculpe.
- Tudo bem, eu tenho tempo e posso esperar por ele - informou o velho, com aquele ar de velho que tem tempo.
Silêncio.
- Pai - disse o homem que tinha deixado de apenas ter cara de babaca mas agora passava também a ser efetivamente considerado babaca - vamos comer, vamos?
- Não, quero falar com o gerente.
Mais silêncio até que o nosso amigo babaca resolveu que a fome era muita, pegou a bandeja e foi sentar. Sem falar nada, o velho simplesmente foi sentar também.
Pedi meu lanche e, claro, sentei perto dos dois para acompanhar na íntegra os acontecimentos que viriam.
A conversa que se seguiu não foi tão proveitosa quanto eu imaginava que seria, e eu já tava perdendo as esperanças de um bom post pro blog quando, de repente, surgiu um menino de camiseta vermelha.
O velho e o filho estavam sentados bem na frente da máquina de refrigerante de modos que o menino teve que entrar no campo de visão deles para pegar sua bebida. Tenho certeza de que se ele soubesse o que o esperava, teria levado um suquinho de casa.
O menino tava no meio do caminho quando foi chamado pelo velho. Acredito eu que pela camiseta vermelha que o menino tava usando, o velho achou que ele era o gerente e começou a reclamar do leite. Entregou o leite pro menino e disparou a falar que não podia com açúcar.
O coitado, compreensivelmente, ficou sem ação. Pegou o leite, olhou e devolveu pro velho, que começou a falar das porcentagens e dos absurdos que aquelas porcentagens eram.
- Aliás, qual é o seu nome? - perguntou o velho pro menino.
- Josh.
- Ah, certo, Josh. Eu sou o Ron e esse é o meu filho Kevin.
- Legal, vou lá pegar o meu lanche.
O menino saiu andando devarinho, receoso. Quando entrou no campo de visão do velho de novo, já com sua bandeja, meio que olhou pro velho, meio que não olhou, meio que dando um tchau, meio que não.
- Ei, venha sentar com a gente! - disse o velho, que a essa altura já tinha esquecido que tinha achado que o menino era o gerente da loja.
Ele sentou.
Pra resumir um pouco essa história, digo pra vocês que os assuntos discutidos foram da carreira de rock'n'roll do velho até o verídico caso (verídico porque o amigo do velho disse pra ele que foi verdade) de um homem que bebeu tanto que a barriga dele explodiu.
Nesse contexto, o velho puxou uns panfletos do bolso e começou a falar sobre abortos. Mostrou fotos, números e disse pro Josh que ele podia ficar não só com aqueles panfletos mas também com mais "esses outros dois que também são muito informativos". Só pra lembrar que gente, o Josh era um menino de dezesseis anos que tinha entrado no McDonald's para comer.
Acabou que o Josh disse que precisava ir embora porque tinha ainda muita estrada pela frente. Eles se despediram ao som do velho dizendo que eram oitenta milhões de abortos e que Deus ama o Josh mesmo assim.
Quando o Josh saiu do restaurante, o velho virou pro filho babaca (que ao longo da conversa inteira só tinha levantado a cabeça pra perguntar pro Josh se ele tinha visto o clipe da Lady Gaga em que ela fala sobre o futuro) e disse:
- Quem diria que nós teríamos uma oportunidade dessas, hein!
Concordei, né.