Tem um Kinder Ovão de páscoa aqui na mesa há dois dias. Olho para o ovo e ele tá lá, todo reluzente e embrulhado. Todo laranjinha e branco, olhando de volta pra mim fixamente tipo "oi, abra-me".
Nem encostei nele direito. Admito que a curiosidade de ver qual é a supresa gigante que me espera dentro do ovo (tenho vinte e um anos e gosto das surpresas do Kinder Ovo e você que é feio? Me deixa) cresce em progressão geométrica toda vez que ameaço olhar pra ele. Aí vocês ficam todos tipo "nossa, que disciplinada, vai esperar até o dia da páscoa para abrir o chocolate", né? ("-É"). Então, só que essa coisa da data nem tinha passado pela minha cabeça até eu começar a escrever o texto. Não abri o ovo porque não, simplesmente.
Olho pra ele e fico imaginando o que tem lá dentro, pensando na hora em que eu for abrir o pacote e partir o chocolate ao meio, torcendo pro ovo ter vindo com o defeito mais delicioso que um Kinder Ovo pode ter: camada dupla de chocolate.
Mesma coisa com o celular novo. Comprei semana passada. Branquinho, brilhante, mais limpo que a vida. Sabe quando você até segura com as duas mãos de tanto cuidado? Tipo isso. Esse celular novo não só é novo como também é o primeiro celular recém-saído de uma loja que veio diretamente para a minha posse (Salva de palmas) (Obrigada). Bom, celular novo é sinônimo de plastiquinhos protetores e plastiquinhos protetores são controversos.
Sempre perdi noites de sono indignada com a (até então vista como) frescura que meu pai tem de não tirar os plastiquinhos protetores dos celulares novos que ele compra. Aquela coisa de pegar o celular para ligar pra alguém e ter que lidar com aquele monte de bolhas de ar que se formam em baixo do plastiquinho. Isso sem contar os cantos do plástico que vão se contercendo dramaticamente numa espécie de grito de socorro tipo "me tira daqui porque não me pagam a hora extra".
Não tirei o plastiquinho protetor do meu. Tá aqui, nesse mesmo estado deplorável que eu descrevi acima - digno de pedido de alforria, judiação. Mas não tem jeito: o momento de tirar o plastiquinho é único. Agora eu sei o que é isso. É o tipo de experiência que não tem volta (mesmo que você tente colar o plastiquinho de volta e ele fique no lugar certo: não é a mesma coisa - todo mundo sabe disso). É preciso esperar pelo momento certo.
Sou assim até com pensamentos, às vezes.
- pausa para o momento crítico em que eu me pergunto se devo terminar o post por aqui e assim tentar preservar um pouco da imagem de pessoa normal que eu acho que passo para vocês, queridos leitores desse blog. Tarde demais, vamo que vamo -
Quando tenho alguma coisa legal para pensar (seja uma festa que vai acontecer, uma viagem ou até uma idéia para um texto), deixo o pensamento guardado pra mais tarde. Gosto de tirar um tempo para pensar em coisas legais porque, assim como se eu estivesse abrindo o Kinder Ovão, gosto dos detalhes do processo. Penso com cuidado na roupa, na maquiagem, na cor do esmalte. Se for um texto, penso no que quero dizer, nos parágrafos, nas palavras.
Faço esse tipo de coisa desde criança, na verdade. Agora que tô refletindo sobre esse assunto, tô lembrando que semanas antes de todos os primeiros dias de aula, eu ficava pensando no meu material (sempre adorei material escolar novo) - os lápis de cor fechadinhos na caixa, os cadernos novos, as réguas. Sabia que estava tudo no armário, mas não mexia. Pra material de escola eu costumava esperar até o último dia antes de ir lá arrumar tudo para começar a usar.

