Esse negócio de internet não é fácil. Lidar com pessoas na internet, então - benzadeus.
Essa semana o bafão do twitter foi o tópico "preconceito". Uma fulana resolveu escrever uma frase xingando nordestino e o negócio ficou feio. No tweet ela dizia que nordestino não servia para nada porque elegeram a Dilma como presidente e por isso mereciam morrer. Particularidades políticas a parte (não votei na Dilma mas, diferente de muita gente entendo e aceito que ela venceu porque a maioria decidiu assim), a reação que essa história causou foi no mínimo impressionante. Saiu em jornal, as pessoas se mobilizaram, a menina sofreu ameaças e no fim pediu desculpas.
Pessoas reagem - e isso é uma faca de dois gumes porque às vezes elas têm motivo, mas às vezes não. Quando o caso é o como esse que citei acima, acho que não há nada mais aceitável do que protestar e buscar um certo nível de justiça. Agora, quando o problema é interpretação de texto, me irrito profundamente.
A palavra preconceito, por exemplo. Por definição, segundo o dicionário Michaelis, significa:
pre.con.cei.to sm (pre+ conceito)
1. Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados. 2. Opinião ou sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão. 3. Superstição que obriga a certos atos ou impede que eles se pratiquem. 4. Sociol Atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos. P. de classe: atitudes discriminatórias incondicionadas contra pessoas de outra classe social. P. racial: manifestação hostil ou desprezo contra indivíduos ou povos de outras raças. P. religioso: intolerância manifesta contra indivíduos ou grupos que seguem outras religiões.
Só que definição de dicionário e nada, né. Aquela coisa. Na vida real o negócio costuma funcionar da seguinte maneira: falou mal é preconceituoso. Ponto.
Mas calma lá, gentem. Não é bem assim.
Eu me considero uma pessoa que sabe lidar bem com palavras - não pelo fato de ter estudado sobre isso, aliás, NÃO pelo fato de ter estudado sobre isso, mas simplesmente por gostar. Quando escrevo um texto, seja ele sobre o que for, escolho as palavras cuidadosamente para ter certeza de que estou me expressando da melhor maneira possível - e gosto de fazer isso.
Quando escrevo, sei que por decreto estou sujeita à interpretações e que por mais que passe horas tentando me expressar corretamente por meio das palavras mais apropriadas que consiga escolher, alguém me interpretará erroneamente. Isso acontece com todo mundo que se predispõe a passar algum tipo de mensagem e, infelizmente, é inevitável.
Particularmente, observo os erros de interpretação das coisas que escrevo com cada vez mais frequência - e não porque estou desaprendendo a escrever, mas porque mais gente têm lido meus textos. E não dá para escapar, quanto mais gente, maior a probabilidade de dar merda.
Só que é muito fácil ofender as pessoas. Mesmo sem conhecer o alvo de ataque pessoalmente, existem algumas palavras que são infalíveis e funcionam tipo um gatilho.
No último texto, falei de uma gorda fedida. A história realmente aconteceu e a mulher realmente era gorda. Não passou nem uma hora da postagem do texto, já tinha gente dizendo que eu sou preconceituosa.
Na hora que li aquilo, pensei "ih, pronto".
Sinto informar-lhes mas dizer que uma gorda estava fedendo insuportavelmente no ônibus não é preconceito. Preconceito seria se eu tivesse dito que todos os gordos fedem e basta reler o texto para confirmar que esse não foi o caso.
Mas se isso ainda não é explicação suficiente, detalhar-me-ei (futuro mais que perfeito é só para quem pode, sou chique). Ainda lembram da definição da palavra "preconceito", lá do começo do texto? Não, né. Vamos de novo então, com os devidos comentários.
1. Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados.
Nem o tamanho da mulher nem o cheiro foram conceitos formados antes de eu ter conhecimento adequado.
2. Opinião ou sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão.
O sentimento com certeza foi desfavorável, mas definitivamente não foi concebido independente de experiência.
3. Superstição que obriga a certos atos ou impede que eles se pratiquem.
O único ato que eu fui obrigada a realizar foi parar de respirar, isso, porém, não a impediu de continuar fedendo.
4. Sociol Atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos.
Minha atitude foi narizalmente condicionada, sem maiores embasamentos. A antipatia pela indivídua foi gerada pelo o único e exclusivo fato dela ter agredido minha paz respiratória.
P. de classe: atitudes discriminatórias incondicionadas contra pessoas de outra classe social.
Não sei se a mulher era rica ou pobre e nem mencionei isso no texto.
P. racial: manifestação hostil ou desprezo contra indivíduos ou povos de outras raças.
Não lembro de que cor a mulher era já que a única cor que eu enxergava era verde musgo, que foi a cor que o ambiente inteiro ficou depois que ela chegou.
P. religioso: intolerância manifesta contra indivíduos ou grupos que seguem outras religiões.
Nem o diabo deve ter tamanha capacidade fendetística, sinceramente.
Bom.
Não nego que as palavras usadas no texto tenham sido meio agressivas, mas olha - palavras tão ruins ou piores teriam sido usadas da mesma maneira se a pessoa detentora do fedor no ônibus fosse magra, podem ter certeza.
O que quero que entendam de uma vez por todas é que as interpretações de vocês podem não estar completamente corretas sobre tudo, o tempo todo. E que antes de sair por aí pregando cartazes pela rua sobre como eu sou uma pessoa terrível que deveria morrer queimada em praça pública por ser tremendamente preconceituosa contra gordos injustiçados, vocês precisam se certificar de que estão corretos no que afirmam.
Mesmo porque, pessoal, na semana seguinte à do ocorrido da gorda fedida, eu tive o imenso prazer de estar no mesmo ambiente que o dono dos pés mais fedorentos do universo estava. E adivinhem só, ele era mais magro que pau de vira tripa.
Moral da história - Estudem Interpretação de Texto e tomem banho diariamente.