Cheia de sacolas, uma mochila pesando novecentos e trinta e sete quilos por causa dos cinquenta e nove mil livros, um guarda-chuva que dava bem para proteger o mundo inteiro de um segundo dilúvio, fones de ouvido que enroscavam em todas as alças de todas as coisas que possuiam alças e, por último mas não menos importante, com um humor não muito receptivo ao inferno que se decorreria a seguir, lá estava eu, finalmente acomodada no transporte público.
Estava tudo no meu colo, com exceção da sacola de compras que repousava ao meu lado, ultrapassando o limite do meu assento em um centímetro e doze milésimos. A música estava no último volume e minha expressão era a básica "não me irrite porque eu sou capaz de realmente te morder". Ao longe, avisto o hipopótamo.
Rindo alto, se apoiando na catraca, muito divertido ser amiga do motorista do transporte público. Ignoro, quem sabe se ela perceber que esse lugar em que me encontro é um buraco negro, ela fica longe.
O papo tá bom mas tenho que ir depois, ela passa a catraca e quer sentar do meu lado, óbvio. Evito o contato ocular, confiando nas habilidades da minha Capa de Invisibilidade imaginária. Longos e tensos segundos se passam. Ela abaixa, certificando-se de que se encontrava no mesmo nível olhístico que eu e balbucia alguma coisa sobre sentar-se alí.
Esbarra em tudo que eu estava carregando e senta, já cumprimentando o infeliz que estava sentado na minha frente.
- Nossa, mas eu conheço todo mundo nesse ônibus! (...)
Todo mundo menos eu, o Ceifador da Morte. Desintegre-se e acabe com essa agonia que você chama de vida. Argh.
(...) - Que você tá fazendo?
Que será que ele tava fazendo né, pessoal. Malabares?
Algumas paradas depois, o animal repete todo o processo esbarracional para levantar-se e ir fazer mais amigos fora do ônibus, lá no quinto dos infernos.
Mas não acabou.
Mal tinha tido tempo para concluir o quanto eu gosto da minha própria companhia silenciosa, eis que surge a coisa mais gorda com poderes auto-locomotivos que você já teve o desprazer de imaginar na vida. Passa pela catraca e movimenta-se rolandamente direto para o meu lado. Senta-se esmagando até meus pensamentos homicidas com aquela massa planetária de teor gorduroso maior do que o do próprio óleo que também atende por bunda gigantesca.
Mas o diâmetro bundal não era desgraça suficiente. O cheiro, minha gente. Ela fedia todos os odores que existem para serem fedidos. Era uma batalha perdida. Fiquei ali por um tempo, na esperança de que conseguiria vencê-la pelo cansaço (leia-se incomodá-la com a minha existência ocupando o espaço que suas banhas insistentemente tentavam dominar) - só que aí lembrei que gente que carrega mais de trezentas e vinte e cinco toneladas nos pés diariamente não perde a paciência fácil, especialmente se estiver sentada. Sobreviver àquela situação era preciso e fazer todo o esforço que ajeitar minhas bagagens para me levantar era uma atitude requereria que deveria ser tomada imediatamente. Bati as sacolas nas cabeças de tudo quanto era criança remelenta e me mudei um pouco mais para perto das portas. Tive que ficar em pé durante o resto do caminho todo e tolerar as brisas do fedor alheio sempre que o ônibus virava para esquerda.
Porque a gente morre asfixiado com o fedor alheio mas não morre sem lutar.