19 de outubro de 2010

Luta pela sobrevivência

Cheia de sacolas, uma mochila pesando novecentos e trinta e sete quilos por causa dos cinquenta e nove mil livros, um guarda-chuva que dava bem para proteger o mundo inteiro de um segundo dilúvio, fones de ouvido que enroscavam em todas as alças de todas as coisas que possuiam alças e, por último mas não menos importante, com um humor não muito receptivo ao inferno que se decorreria a seguir, lá estava eu, finalmente acomodada no transporte público. 

Estava tudo no meu colo, com exceção da sacola de compras que repousava ao meu lado, ultrapassando o limite do meu assento em um centímetro e doze milésimos. A música estava no último volume e minha expressão era a básica "não me irrite porque eu sou capaz de realmente te morder". Ao longe, avisto o hipopótamo.

Rindo alto, se apoiando na catraca, muito divertido ser amiga do motorista do transporte público. Ignoro, quem sabe se ela perceber que esse lugar em que me encontro é um buraco negro, ela fica longe. 

O papo tá bom mas tenho que ir depois, ela passa a catraca e quer sentar do meu lado, óbvio. Evito o contato ocular, confiando nas habilidades da minha Capa de Invisibilidade imaginária. Longos e tensos segundos se passam. Ela abaixa, certificando-se de que se encontrava no mesmo nível olhístico que eu e balbucia alguma coisa sobre sentar-se alí.

Esbarra em tudo que eu estava carregando e senta, já cumprimentando o infeliz que estava sentado na minha frente. 

- Nossa, mas eu conheço todo mundo nesse ônibus! (...)

Todo mundo menos eu, o Ceifador da Morte. Desintegre-se e acabe com essa agonia que você chama de vida. Argh.

(...) - Que você tá fazendo? 

Que será que ele tava fazendo né, pessoal. Malabares?

Algumas paradas depois, o animal repete todo o processo esbarracional para levantar-se e ir fazer mais amigos fora do ônibus, lá no quinto dos infernos.

Mas não acabou.

Mal tinha tido tempo para concluir o quanto eu gosto da minha própria companhia silenciosa, eis que surge a coisa mais gorda com poderes auto-locomotivos que você já teve o desprazer de imaginar na vida. Passa pela catraca e movimenta-se rolandamente direto para o meu lado. Senta-se esmagando até meus pensamentos homicidas com aquela massa planetária de teor gorduroso maior do que o do próprio óleo que também atende por bunda gigantesca. 

Mas o diâmetro bundal não era desgraça suficiente. O cheiro, minha gente. Ela fedia todos os odores que existem para serem fedidos. Era uma batalha perdida. Fiquei ali por um tempo, na esperança de que conseguiria vencê-la pelo cansaço (leia-se incomodá-la com a minha existência ocupando o espaço que suas banhas insistentemente tentavam dominar) - só que aí lembrei que gente que carrega mais de trezentas e vinte e cinco toneladas nos pés diariamente não perde a paciência fácil, especialmente se estiver sentada. Sobreviver àquela situação era preciso e fazer todo o esforço que ajeitar minhas bagagens para me levantar  era uma atitude requereria que deveria ser tomada imediatamente. Bati as sacolas nas cabeças de tudo quanto era criança remelenta e me mudei um pouco mais para perto das portas. Tive que ficar em pé durante o resto do caminho todo e tolerar as brisas do fedor alheio sempre que o ônibus virava para esquerda. 

Porque a gente morre asfixiado com o fedor alheio mas não morre sem lutar. 

11 de outubro de 2010

Dia das Crianças

Aí que chega o Dia das Crianças e todo mundo fica super nostálgico, lembrando de todas as maravilhas de seus tempos de infância, afirmando federalmente que aqueles sim eram os bons tempos. Só que gente, prestenção. Vocês tão com uma memória muito curta e seletiva - ser criança é uma coisa frustrante e não é à toa que passamos praticamente a infância toda querendo crescer logo. Acompanhem:

Não poder nem chegar perto da sobremesa antes de almoçar.
Quantas não foram as vezes em que enchemos o saco de nossos pais, choramos e fizemos drama por não poder tomar sorvete antes do almoço, não é mesmo? Essa regra sempre foi uma chatice gigantesca e os argumentos tipo "- mas mãe, eu VOU comer a comida também!" nunca funcionavam. Definitivamente, poder comer sobremesa antes do almoço sempre foi um dos grandes motivos que me faziam querer crescer mais rápido.

Lidar com "Não posso falar isso porque tem criança na sala".
Argh, queria morrer todas as vezes que falavam isso perto de mim. Na minha casa sempre tinha visita e mais cedo ou mais tarde essa maldita frase saía. Para mim sempre soou tipo "bem que eu gostaria de falar abertamente sobre o assunto, mas esse encosto em forma de miniatura humana está aqui, então outra hora eu te conto". Como se o fulano não soubesse que a criança está ali do lado e se sentirá tão constrangida por existir como se alguém fizesse a mesma coisa com ele. Não sei se eles acham que estão preservando nossa inocência ao evitar um assunto falando essa específica frase, mas o que eu posso dizer é que pelo menos no meu caso, cada vez que o negócio era comigo a minha inocência se dissolvia um pouco mais junto ao ácido sulfúrico que eu desejava ter para jogar na cara de quem estava querendo bancar o adultão

Esperar uma hora depois de comer para poder entrar na piscina.
Todo mundo sabe não tem problema nenhum entrar na água depois de comer e que essa história só é contada até hoje porque, na verdade, nada mais é do que uma das mais famosas desculpas que os primeiros pais da História inventaram para poderem ficar conversando durante mais um tempinho antes de terem que ir se preocupar com seus filhos morrendo afogados. 

Não ter controle sobre seu próprio cabelo.
Pouquíssimas são as pessoas que depois de adultas têm orgulho das fotos de tempo de criança. Eu não sei por qual inexplicável motivo nossos pais optam por nos dar cortes de cabelo tão horríveis quando somos crianças, mas acontece e existem provas. Pior de tudo é que só descobrimos o quão ridículos nós éramos depois que crescemos, mesmo. É só vendo as fotos hoje em dia que você finalmente entende porquê o menino da sétima série não te dava muita bola - na época não fazia sentido. Se não era o seu cabelo, era o óculos ou alguma outra coisa muito absurda pela qual você e seus poucos anos não eram responsáveis.

Ir dormir cedo.
Não é nem a questão de ir dormir cedo em si, mas a tensão de estar chegando determinada hora e você começar a contar os minutos de liberdade que ainda lhe restam. Aí chega a hora só que ninguém parece se lembrar de te mandar para cama. Você fica feliz mas ao mesmo tempo não pode demonstrar muita emoção porque não quer que eles lembrem que você está ali ilegalmente. Aquela sensação de clandestinidade lhe corrói por dentro a cada minuto extra que se passa porque enquanto você está tentando ser invisível porque você sabe que a qualquer minuto que alguém vai chegar e te mandar dormir - e com mais urgência porque você "já devia estar na cama!". 

Ter seus problemas totalmente subestimados.
Problema de criança nunca é considerado problema de verdade porque eles "são felizes e não sabem", "não têm nenhuma responsabilidade que não seja a escola" etc. Só que a gente nunca pára para pensar que os problemas deles são os maiores que eles já tiveram e portanto tão estressantes para eles como os nossos são para a gente. Escola é uma das fases mais difíceis da nossa vida - todo mundo fala que é na escola que a gente termina de desenvolver nosso caráter e nossa personalidade e é mesmo. Agora pensa: se quando alguém aponta um defeito que precisa ser consertado na sua personalidade você já fica todo ofendido, sabendo como seria difícil se acostumar a agir de modo diferente sobre determinada coisa, imagina como não é o processo de construir o troço inteiro com seis anos de idade, sofrendo as consequências de todas as decisões erradas pela primeira vez. Tenso, né.


Resumindo:

Ser criança é ter todos os problemas do mundo e ser obrigado a lidar com eles tendo um cabelo tosco.

Parabenize suas crianças.

30 de setembro de 2010

Cólica menstrual

Ela começa sorrateira, quase imperceptível. Uma dorzinha aguda que incomoda em doses homeopáticas. Nessa fase, costuma durar o dia inteiro. Como a dor é leve, acaba caindo no esquecimento mas, pelo fato de ser constante, ela tem o poder de lhe irritar silenciosamente.

Você deita à noite e só nesse momento sente o baque da dorzinha inofensiva que lhe acompanhou durante o dia. O corpo inteiro está dolorido e você, derrotada. Se enrola nos cobertores e dorme instantaneamente.

No dia seguinte, você acorda se sentindo ótima. Nem lembra da dorzinha chata e segue o dia bem humorada. Mal sabe que seus minutos de felicidade estão contados. De repente e sem maiores cerimônias, nossa protagonista volta. E dessa vez não há nada que possa ser ignorado ou esquecido sobre ela. 

A dor toma conta de toda a área abdominal, mas o foco é naquele canto que permaneceu esquecido durante as três semanas anteriores - seu útero. É como se as duas trompas se desligassem dos ovários e tomassem vida, envolvendo o resto do útero como se fossem braços gigantes e malígnos que espremem suas entranhas lenta e dolorosamente sem quaisquer perspectivas de desistência. A sensação é de que realmente há algo apertando e torcendo tudo o que existe dentro da sua barriga. 

Aí pára. Do nada, é como se uma dose de compaixão sagrada tivesse sido aplicada diretamente em seu abdômen. Alívio. É realmente incrível o fato de que não nos damos conta de todos os itens que temos no nosso corpo até que eles comecem a doer. Você agredece aos céus pela habilidade recém-re-concedida de respirar normalmente e quando começa a se acostumar com a idéia de liberdade respiratória, começa tudo de novo.

A dor volta pior, é como se apenas retomasse o assunto de onde havia parado. Aos poucos vai ficando difícil ficar em pé, e cada vez pior manter uma boa postura sentada. Você sente frio, náusea, ódio mortal de todos os seres terrestres, toma o remédio, o remédio não funciona pelos próximos trinta minutos e a dor persiste. Indo e voltando de uma maneira estrategicamente calculada para lhe enlouquecer aos poucos.

No meu caso, esse inferno dura em torno de dois dias, no começo do festival sanguinário mensal, e volta no último - três vezes mais forte, despedindo-se e deixando bem claro que dali a três semanas nos encontraremos novamente.

Pelos próximos vinte e cinco anos.

24 de setembro de 2010

Enchida

Estava eu na padaria, esperando há uns vinte minutos (também conhecidos como "cinco minutinhos") pelos mini kibes que tanto me apetecem, viajando pelo incrível mundo das tortinhas de morango quando de repente fui trazida de volta à realidade por duas meninas.

Ambas estavam perto de suas mães, porém longe o suficiente para se sentirem confortáveis em terem uma conversa criancística normal. Uma delas, a mais gordinha, devorava um picolé furiosamente, impossibilitada de pronunciar qualquer coisa que fizesse sentido. A outra não parava de falar. 

Não teria nem prestado atenção nelas se não tivesse ouvido a seguinte frase:

- É por isso que você é...

De longe senti o cérebro infantil trabalhando e foi nesse momento que olhei para elas. O barulho da conversa era constante até aquele momento, mas o silêncio que se estabeleceu depois das reticências foi denso o bastante para despertar minha atenção. A que se acabava com o sorvete olhava fixamente para a outra, que com as mãos no ar representava a avantajada forma física da amiga, claramente tentando completar a frase que havia começado. 

- É por isso que você é meio... enchida. Enchida. É, acho que essa é a palavra certa. Você é meio enchida.

A outra a encarava tipo "e o que você está querendo dizer?". O constrangimento da que tinha começado a conversa sobre pesos e medidas era inegável. 

Concluíndo que sua mensagem ainda não tinha sido passada de maneira satisfatória, ela levou as mãos ao ar de novo, recriando o formato da barriga da outra. Dava para perceber que ela estava se esforçando para ser policamente correta. 

- Posso falar que você é gorda? - disse, falhando miseravelmente.

Moral da história: se não estiver conseguindo se explicar direito, pare de tentar.

19 de setembro de 2010

Dica aleatória (sobre tempero)

Se não souber com o que temperar sua comida, use sal, azeite extra-virgem e limão.