11 de outubro de 2010

Dia das Crianças

Aí que chega o Dia das Crianças e todo mundo fica super nostálgico, lembrando de todas as maravilhas de seus tempos de infância, afirmando federalmente que aqueles sim eram os bons tempos. Só que gente, prestenção. Vocês tão com uma memória muito curta e seletiva - ser criança é uma coisa frustrante e não é à toa que passamos praticamente a infância toda querendo crescer logo. Acompanhem:

Não poder nem chegar perto da sobremesa antes de almoçar.
Quantas não foram as vezes em que enchemos o saco de nossos pais, choramos e fizemos drama por não poder tomar sorvete antes do almoço, não é mesmo? Essa regra sempre foi uma chatice gigantesca e os argumentos tipo "- mas mãe, eu VOU comer a comida também!" nunca funcionavam. Definitivamente, poder comer sobremesa antes do almoço sempre foi um dos grandes motivos que me faziam querer crescer mais rápido.

Lidar com "Não posso falar isso porque tem criança na sala".
Argh, queria morrer todas as vezes que falavam isso perto de mim. Na minha casa sempre tinha visita e mais cedo ou mais tarde essa maldita frase saía. Para mim sempre soou tipo "bem que eu gostaria de falar abertamente sobre o assunto, mas esse encosto em forma de miniatura humana está aqui, então outra hora eu te conto". Como se o fulano não soubesse que a criança está ali do lado e se sentirá tão constrangida por existir como se alguém fizesse a mesma coisa com ele. Não sei se eles acham que estão preservando nossa inocência ao evitar um assunto falando essa específica frase, mas o que eu posso dizer é que pelo menos no meu caso, cada vez que o negócio era comigo a minha inocência se dissolvia um pouco mais junto ao ácido sulfúrico que eu desejava ter para jogar na cara de quem estava querendo bancar o adultão

Esperar uma hora depois de comer para poder entrar na piscina.
Todo mundo sabe não tem problema nenhum entrar na água depois de comer e que essa história só é contada até hoje porque, na verdade, nada mais é do que uma das mais famosas desculpas que os primeiros pais da História inventaram para poderem ficar conversando durante mais um tempinho antes de terem que ir se preocupar com seus filhos morrendo afogados. 

Não ter controle sobre seu próprio cabelo.
Pouquíssimas são as pessoas que depois de adultas têm orgulho das fotos de tempo de criança. Eu não sei por qual inexplicável motivo nossos pais optam por nos dar cortes de cabelo tão horríveis quando somos crianças, mas acontece e existem provas. Pior de tudo é que só descobrimos o quão ridículos nós éramos depois que crescemos, mesmo. É só vendo as fotos hoje em dia que você finalmente entende porquê o menino da sétima série não te dava muita bola - na época não fazia sentido. Se não era o seu cabelo, era o óculos ou alguma outra coisa muito absurda pela qual você e seus poucos anos não eram responsáveis.

Ir dormir cedo.
Não é nem a questão de ir dormir cedo em si, mas a tensão de estar chegando determinada hora e você começar a contar os minutos de liberdade que ainda lhe restam. Aí chega a hora só que ninguém parece se lembrar de te mandar para cama. Você fica feliz mas ao mesmo tempo não pode demonstrar muita emoção porque não quer que eles lembrem que você está ali ilegalmente. Aquela sensação de clandestinidade lhe corrói por dentro a cada minuto extra que se passa porque enquanto você está tentando ser invisível porque você sabe que a qualquer minuto que alguém vai chegar e te mandar dormir - e com mais urgência porque você "já devia estar na cama!". 

Ter seus problemas totalmente subestimados.
Problema de criança nunca é considerado problema de verdade porque eles "são felizes e não sabem", "não têm nenhuma responsabilidade que não seja a escola" etc. Só que a gente nunca pára para pensar que os problemas deles são os maiores que eles já tiveram e portanto tão estressantes para eles como os nossos são para a gente. Escola é uma das fases mais difíceis da nossa vida - todo mundo fala que é na escola que a gente termina de desenvolver nosso caráter e nossa personalidade e é mesmo. Agora pensa: se quando alguém aponta um defeito que precisa ser consertado na sua personalidade você já fica todo ofendido, sabendo como seria difícil se acostumar a agir de modo diferente sobre determinada coisa, imagina como não é o processo de construir o troço inteiro com seis anos de idade, sofrendo as consequências de todas as decisões erradas pela primeira vez. Tenso, né.


Resumindo:

Ser criança é ter todos os problemas do mundo e ser obrigado a lidar com eles tendo um cabelo tosco.

Parabenize suas crianças.

30 de setembro de 2010

Cólica menstrual

Ela começa sorrateira, quase imperceptível. Uma dorzinha aguda que incomoda em doses homeopáticas. Nessa fase, costuma durar o dia inteiro. Como a dor é leve, acaba caindo no esquecimento mas, pelo fato de ser constante, ela tem o poder de lhe irritar silenciosamente.

Você deita à noite e só nesse momento sente o baque da dorzinha inofensiva que lhe acompanhou durante o dia. O corpo inteiro está dolorido e você, derrotada. Se enrola nos cobertores e dorme instantaneamente.

No dia seguinte, você acorda se sentindo ótima. Nem lembra da dorzinha chata e segue o dia bem humorada. Mal sabe que seus minutos de felicidade estão contados. De repente e sem maiores cerimônias, nossa protagonista volta. E dessa vez não há nada que possa ser ignorado ou esquecido sobre ela. 

A dor toma conta de toda a área abdominal, mas o foco é naquele canto que permaneceu esquecido durante as três semanas anteriores - seu útero. É como se as duas trompas se desligassem dos ovários e tomassem vida, envolvendo o resto do útero como se fossem braços gigantes e malígnos que espremem suas entranhas lenta e dolorosamente sem quaisquer perspectivas de desistência. A sensação é de que realmente há algo apertando e torcendo tudo o que existe dentro da sua barriga. 

Aí pára. Do nada, é como se uma dose de compaixão sagrada tivesse sido aplicada diretamente em seu abdômen. Alívio. É realmente incrível o fato de que não nos damos conta de todos os itens que temos no nosso corpo até que eles comecem a doer. Você agredece aos céus pela habilidade recém-re-concedida de respirar normalmente e quando começa a se acostumar com a idéia de liberdade respiratória, começa tudo de novo.

A dor volta pior, é como se apenas retomasse o assunto de onde havia parado. Aos poucos vai ficando difícil ficar em pé, e cada vez pior manter uma boa postura sentada. Você sente frio, náusea, ódio mortal de todos os seres terrestres, toma o remédio, o remédio não funciona pelos próximos trinta minutos e a dor persiste. Indo e voltando de uma maneira estrategicamente calculada para lhe enlouquecer aos poucos.

No meu caso, esse inferno dura em torno de dois dias, no começo do festival sanguinário mensal, e volta no último - três vezes mais forte, despedindo-se e deixando bem claro que dali a três semanas nos encontraremos novamente.

Pelos próximos vinte e cinco anos.

24 de setembro de 2010

Enchida

Estava eu na padaria, esperando há uns vinte minutos (também conhecidos como "cinco minutinhos") pelos mini kibes que tanto me apetecem, viajando pelo incrível mundo das tortinhas de morango quando de repente fui trazida de volta à realidade por duas meninas.

Ambas estavam perto de suas mães, porém longe o suficiente para se sentirem confortáveis em terem uma conversa criancística normal. Uma delas, a mais gordinha, devorava um picolé furiosamente, impossibilitada de pronunciar qualquer coisa que fizesse sentido. A outra não parava de falar. 

Não teria nem prestado atenção nelas se não tivesse ouvido a seguinte frase:

- É por isso que você é...

De longe senti o cérebro infantil trabalhando e foi nesse momento que olhei para elas. O barulho da conversa era constante até aquele momento, mas o silêncio que se estabeleceu depois das reticências foi denso o bastante para despertar minha atenção. A que se acabava com o sorvete olhava fixamente para a outra, que com as mãos no ar representava a avantajada forma física da amiga, claramente tentando completar a frase que havia começado. 

- É por isso que você é meio... enchida. Enchida. É, acho que essa é a palavra certa. Você é meio enchida.

A outra a encarava tipo "e o que você está querendo dizer?". O constrangimento da que tinha começado a conversa sobre pesos e medidas era inegável. 

Concluíndo que sua mensagem ainda não tinha sido passada de maneira satisfatória, ela levou as mãos ao ar de novo, recriando o formato da barriga da outra. Dava para perceber que ela estava se esforçando para ser policamente correta. 

- Posso falar que você é gorda? - disse, falhando miseravelmente.

Moral da história: se não estiver conseguindo se explicar direito, pare de tentar.

19 de setembro de 2010

Dica aleatória (sobre tempero)

Se não souber com o que temperar sua comida, use sal, azeite extra-virgem e limão.

13 de setembro de 2010

Casamentos, namoros e merda

Há um tempo atrás, anunciei que uma amiga minha se casaria, lembram? Pois é. Segunda-feira passada foi o grande dia. Como já era de se esperar, ela estava linda. O noivo também. Eles são ótimos um para o outro e eu desejo tudo de bom para os dois. Estar lá foi muito legal e me fez pensar.

Foi o primeiro casamento da minha vida como convidada oficial em vez de filha dos convidados e, embora eu já estivesse psicologicamente preparada para o evento, foi um sentimento esquisito. Não sei vocês, mas desde quando eu era um cotoco humano eu já falava sobre o meu marido. Pensava no vestido, na festa, nas flores, na viagem, tomara que o meu noivo não queira usar roupa branca. Nos casamentos que eu ia, passava o tempo inteiro admirando a noiva, achando lindo aquele vestidão e torcendo para conseguir ver o sapato. Também achava divertido observar o noivo. Todo bonitão mas transpirando nervosismo por todos os poros, preocupado com tudo, andando para todos os lados, olhando no relógio, arrumando a gravata a cada dois minutos.

Aí, passei por uma fase em que afirmava categoricamente que não me casaria. Queria ser médica e não ia ter tempo para nada. Além disso, sempre brigava com os meninos nojentos da minha sala e achava absurdo alguém querer passar o resto da vida com algo que pertencesse àquele gênero. No fundo, porém, sempre que pintava as unhas de esmalte branco clarinho pensava que aquela seria a cor do meu esmalte de noiva. 

O tempo passou, e, alguns relacionamentos com os "algos pertecentes ao gênero" depois, continuo achando que eles são meio nojentos. Penso em viajar o mundo inteiro e não ter tempo para ser casada. Acho que festa é desperdício de dinheiro e que se eu tivesse que fazer uma, enlouqueceria. Não aceitaria nada que não fosse impecavelmente perfeito e brigaria com o mundo inteiro se as flores da decoração estivessem velhas. Acima de tudo, hoje em dia entendo o que significa de fato, casar-se. Viver o resto da vida com o mesmo homem. Não é fácil achar a pessoa certa e na minha opinião, tem muita gente fazendo tudo errado. Soa meio clichê dizer que casar é um sonho, mas é. 

No planeta Terra versão 2010, encontrar alguém que já não mande logo o clássico "não estou preparado para um compromisso sério" é raro e surpreendente. Uma pessoa dessas que também seja sincera, que saiba se comunicar, que tenha um bom humor, que seja sua amiga, que te entenda e que além de todas essas qualidades (e quaisquer outras que estejam na sua lista de requerimentos para um marido/esposa - a minha inclui matar insetos e lavar louça, por exemplo), ainda goste de você pelo que você é, não é exatamente algo que podemos chamar de comum.

Não tenho vergonha nenhuma em dizer que quero me casar um dia. A questão é que também não baseio minha vida nisso. Relacionamento assim é coisa séria e pressa para lidar com essas coisas estraga tudo. O que me irrita é que esse assunto virou tabu entre casais - é sempre evitado em namoros por medo de que "afaste" a outra pessoa - whataRÉU - se falar sobre casamento com a pessoa com quem você namora a afasta, que tipo de namoro é esse? 

É óbvio que você, pessoa sem noção, não precisa chutar o pau da barraca e virar um daqueles neuróticos que necessita de definições concretas e de acordos de fidelidade eterna - o que eu quero dizer é que, pelo menos do jeito que eu vejo as coisas, namoro é um relacionamento que serve para conhecer a outra pessoa suficientemente bem para poder decidir se casaria com ela ou não. Se esse não é o seu objetivo, não namore e tenha isso bem definido na sua cabeça, assim você não atrasa a vida alheia com a famosa história de "indecisão sobre seus sentimentos". Homens e mulheres, viu.

Em compensação, se decidir que ter um relacionamento sério de verdade é o que você quer, quando conseguir, seja sensato. Fidelidade, respeito e sinceridade são sinônimos de relacionamento sério e não privilégios, que é como são considerados ultimamente. Tem que ter tudo isso e ponto final. E se não tiver está errado, nem adianta tentar justificar. 

Enfim, as minhas histórias são longas e servem de exemplo para muitos casos que ouço por aí. As inevitáveis frustrações que vieram com os meus relacionamentos (não só amorosos mas de amizade também), me fizeram aprender muito sobre o cerumano de modo geral. São coisas que me fizeram crescer e que eu vou levar para sempre. Acontece muita merda e isso é um fato indiscutível, vai de você saber usar a merda como adubo ou não.

No meio do caminho, não vou negar que questionei várias vezes os meus planos para o futuro e isso com certeza acontecerá mais muitas vezes. Enquanto isso, a listinha de músicas que eu quero que sejam tocadas no meu casamento está guardada em algum lugar não muito distante, por aí. Nunca se sabe, né.

E vocês, hein? Querem casar?