19 de agosto de 2010

Hábitos de sono

Muita gente que alega não gostar de acordar cedo diz que embora não lhes agrade, a rotina os acaba fazendo se acostumar e, por isso, acordam cedo até nos finais de semana. 

No meu caso, o horário de acordar para ir para a escola sempre foi em torno das sete da (madrugada) manhã. Ia dormir às onze da noite e ótimo, oito saudáveis e suficientes horas de sono. Aí eu entrei na faculdade, né. Para resumir a história, no último ano da graduação, se eu dormisse três horas por noite era muito. 

Pergunta: Com base nas afirmações do parágrafo acima, em qual dos dois períodos era simplesmente impossível acordar antes das duas da tarde nos finais de semana? Escolar ou universitário?

Em ambos, sem dúvida. Sempre achei inútil acordar cedo em dias que se pode dormir, além de ficar muito brava quando crianças chorantes ou o tiozinho do biju com aquela matraca proveniente dusinferno passavam na frente da minha casa, com o único e exclusivo objetivo de me acordar.

E assim, quando as pessoas descobrem sobre meus hábitos de sono, meldels - revolta, fúria e indignação transbordam suas veias. 

"- Nossa, credo! Assim você não aproveita o dia!", todas as vezes. 
"- Ah é? E o que você faz de domingo de manhã? Globo Rural?" - sim, eu defendo meus direitos soníferos.

Ao responder, os matutinos gaguejam e nunca me convencem. Não há motivo para acordar cedo num domingo. É chato, demasiadamente silencioso (afinal o barulho todo só acontece enquanto você tenta dormir) e ninguém mais no universo está acordado. 

Esses últimos tempos, não tenho tido necessidade alguma de acordar cedo. É bom, mas me faz perder a noção. Acordo às sete da noite e vou dormir às onze da manhã. De vez em quando saio na rua lá pelas oito da manhã sem nenhuma perspectiva de sono, só para me sentir um pouco mais normal, fingindo que acabei de acordar.

Independente disso, sábados, domingos e feriados foram feitos para serem dormidos. Apóio as saídas com os amigos e o conceito "aproveitar o dia", mas nove da manhã no final de semana simplesmente não faz parte da categoria dia

11 de agosto de 2010

Situações constrangedoras

Atravessar a rua na frente de um carro que parou exclusivamente para você passar.

O constrangimento começa na dúvida se o motorista vai parar ou não. Você já fica com aquela cara de idiota, meio que querendo andar logo, meio que querendo ser legal e esperar. Aí o motorista pára e faz aquele sinal desprezível de "vai, anda" com a mão. Só que nesse momento, por motivos adversos, acontece de você não estar olhando para o carro e portanto, não saber que já pode passar. 

Quando você volta a olhar para o carro, percebe que o motorista já está sinalizando que você pode ir há algum tempo e tenta andar rapidinho para compensar. Tropeça e, durante o movimento, lembra que seria gentil agradecer a paciência alheia. Não sabe se sorri, se manda um jóinha, se bate palma, se realiza um duplo twist carpado (...). Na dúvida, você faz um pouco de cada e finaliza sua performance de modo memorável: batendo de frente com outra pessoa.

Terminar uma conversa com outro dono de cachorro.

Você sai para passear com o cão e vê alguém fazendo a mesma coisa, caminhando em sua direção. O momento do encontro já é meio tenso, porque tanto você quanto a outra pessoa tentam evitar que um cachorro veja o outro, puxando-os discretamente. Não adianta. Enquanto a cheiração canina acontece, o diálogo começa e termina num período de trinta segundos - tempo suficiente para as coleiras virarem um nó digno do reconhecimento escoteiro mundial. Desfaz-se o nó e eternos minutos de silêncio decorrem, você e a outra pessoa de cabeça baixa, fingindo observar a interação canina com interesse. 

A situação fica insuportável e você começa a falar com o cachorro. "- Então tá, né Rex? Vamos para a casa, comer um biscoitinho?". Ele te ignora e, mentalmente, você tenta listar as vantagens de ter um cachorro, falhando miseravelmente. Mais uma vez, tenta chamar a atenção do bicho. "- Então vamos, Rex? Comer um biscoito?". A outra pessoa faz a mesma coisa. Desistindo lá pela quarta vez, ambos puxam os respectivos cachorros e momentos antes de sair correndo em busca da liberdade, você lembra que é boa pessoa, educada. Desviando o olhar entre o cão e dono, diz"- Hm, tchau, então. A gente se vê (daqui a cinco anos, quando eu sair para passear com o Rex de novo, em Júpiter)".

Não ser entendido por um atendente do McDonald's

A fila é grande. Você muda todos os ingredientes do Big Mac desde que se conhece por gente. Dois atendentes estão disponíveis: a gerente e um moleque proveniente direto dos confins do universo, na última fase do treinamento. Você faz os cálculos para descobrir com qual vai cair, e ufa, gerente. Sua vez chega e tanto um quanto outro estão ocupados. Ironias do destino, o cliente do moleque pega o troco mais rápido e você será atendido por ele. Ou seja, né - adeus conceito fast food. Você pede o básico e vai eliminando item por item indesejado, substituíndo-os por outras coisas. Menciona mais de uma vez que não quer queijo. Termina o monólogo gloriosamente com "e para beber, uma Sprite, por favor". Isso tudo contemplando os brinquedinhos do Mc Lanche Feliz. Percebendo um silêncio que não deveria estar acontecendo, você vira para o atendente. Vai ter que repetir o pedido. 

Enquanto isso, a fila aumenta e a pessoa que está sendo atendida pela gerente te olha com impaciência achando, assim como todo o resto da fila, que é você o causador da demora. Depois de repetir tudo que já tinha falado, inclusive que não quer queijo, você ainda não sente a segurança necessária por parte do atendente. Pede para ele confirmar o que você disse. Corrige todos os erros, paga e espera a comida chegar. O próximo da fila, bufando, começa a fazer o pedido dele. O seu finalmente chega e, antes de retirá-lo, você confere. 

Veio com queijo.

3 de agosto de 2010

O trem

Lá estava estava eu, depois de considerável tempo sem contato com transportes públicos em geral, sentada solitária e silenciosamente indo de um lugar da cidade para o outro via trem.

O trem pára, as portas se abrem e a louca entra. A primeira impressão foi magnífica já que aparentemente a mulher estava berrando consigo mesma. Logo vejo, porém, que estava usando fones e que segurava o celular na mão. Pelo menos estava gritando com alguém

Um minuto de insanidade telefonística depois, ela finalmente finalizou a ligação - mas não sem antes pronunciar cada letra de todos os xingamentos que eu já conhecia e de mais alguns que passei a conhecer depois do episódio. Com o trem em movimento, ela levantou e andou em direção às portas. Socou as portas com ambas as mãos. Manteve a cabeça baixa por dois segundos e se virou para mim. "- Pronto, morri", pensei. Acho que na verdade ela não tinha nem sequer notado a minha presença até aquele momento:

"- Desculpa, acabei de terminar com o meu namorado" - ela disse, sentando-se novamente.

Sem comentários. 

As portas se abriram de novo. Duas meninas entraram e sentaram-se logo atrás da louca, um pouco mais para frente de onde eu estava. Mal sabiam o que estava por vir. 

Eis que um cara apareceu. Do fundo do vagão, direto para as duas meninas que tinham acabado de chegar.

"- E aí? O que vocês vão fazer hoje, mais tarde?" - falou ele, com aquele ar de azaração.

Antes delas terem a chance de responder, a louca disse:

"- Sai fora, cara. Elas não querem conversar com você"
"- Como você sabe se elas nem responderam ainda?" - ele retrucou.

Momento de tensão.

"- Ah é?! Meninas, vocês estão interessadas nesse idiota?" - indagou a louca.
"- Ah, ele parece gente boa" - disseram as meninas, contrariando os ensinamentos maternos de não falar com estranhos mentalmente instáveis.
"- Desculpa então, casem-se, tenham filhos e sejam felizes. Argh" - disse a louca, contrariada.
"- Bem feito. Cuida da sua vida" - respondeu o cara, perdendo uma ótima oportunidade de ficar calado.

Nessa hora a louca simplesmente levantou, e indo em direção a ele, gritava:

"- O quê?! Não, vem aqui. Eu vou quebrar a sua cara. Quem você pensa que é?! Eu vou QUEBRAR A SUA CARA!"

Empurrou, chutou e estapeou o infeliz - que justamente quando estava começando a reagir para dar uns tapas na mulher, foi parado por uns cinco outro homens que surgiram do além.

Mas homi que é homi não deixa barato. Um dos cinco, depois de ter separado a louca do primeiro idiota, virou para ela e, obviamente depois de muita reflexão disse:

"- Vai sentar, sua vadia doida. Você é louca!"

E foi aí, caros leitores, que choveu canivete. Fogo por todos os lados, infestação de insetos, tsunamis e furacões:

"- O QUÊ? EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FALOU ISSO! EU SOU UMA VADIA LOUCA?! EU VOU MOSTRAR PRA VOCÊ QUEM É A LOUCA!"

A mulher foi para cima do cara furiosamente, estapeando e socando a cabeça dele, enquanto os outros amigos assistiam, hesitantes - meio que entre se proteger de eventuais golpes e tentar ajudar o amigo. 

Contei que ela era meio gorda e tava com a metade da bunda aparecendo? Lindas imagens, viu pessoal. Definição de classe e elegância, sem dúvida.

A história termina com os caras descendo do trem, ainda xingando e sendo xingados. Depois que todas as portas estavam fechadas, o que tinha apanhado mais não conseguiu evitar de fazer uma última memorável aparição, batendo no vidro da janela e falando o que eu imagino terem sido lindas palavras.

O silêncio estabelecido assim que o trem entrou em movimento foi provavelmente a parte mais constrangedora da coisa toda. A louca sentou, respirou fundo e virou-se para as meninas, que mal se mexeram durante o barraco:

"- Eu tenho dois filhos, sabe. Não costumo ser assim violenta".

Assim violenta, não. Só uns chutes esporádicos na cara de pessoas aleatórias.



Moral da história: Evite dizer que pessoas loucas são loucas.

31 de julho de 2010

Mas por que você faz isso?

Como conto no texto "Sobre mim", gosto de escrever desde antes de saber escrever. Desde que aprendi o que eram letras e como juntá-las de modo que façam sentido, tenho diários e cadernos de anotações. Escrever sempre fez parte de mim. 

Não lembro como foi que descobri sobre blogs nem como foi o processo da decisão de criar um. Mas desde que iniciei a vida blogueira, não parei. Mais de cinco anos, já.

Sobre a parte técnica da coisa, posso dizer que evoluí - de vez em quando até me intrometo nos assustadores HTMLs da vida. E, assim como quando compro cadernos novos, toda vez que mudo alguma coisa por aqui fico admirando a página por horas. 

Muita gente me pergunta a razão pela qual escrevo, o que é que me motiva. A resposta é simples: eu gosto. Muito. 

Quando comecei a publicar textos internéticamente, a idéia era de compartilhar meus pensamentos de modo discreto. Ter meus amigos e família lendo, comentando com as respectivas idéias e só. Com o tempo, outros blogueiros me encontraram, misteriosamente. Alguns me acompanham desde então. Passei a receber vários comentários por post e isso sempre me deixou feliz. Saber que a pessoa leu o texto todo e resolveu deixar um comentário é realmente muito legal.

Então, além da minha vontade constante de escrever, descobri que algumas pessoas tinham real interesse em ler o que eu escrevia e que visitavam o blog com frequência exclusivamente para ler meus textos. Para mim, motivação maior que essa não há. 

Hoje em dia o blog tem sido acessado por mais gente ainda. Com o sucesso que o vlog está sendo, tenho recebido vários leitores novos por aqui. Sem contar os seguidores oficiais, que têm suas fotos e perfis listados aí na lateral. Há uns posts atrás, quando comentei sobre esse assunto, eu tinha só sete seguidores! Agora são mais de setenta e cinco e, além de bastante gente comentando, agora eu tenho gente me pedindo todos os dias para postar coisa nova logo.

Ou seja, conforme o tempo passa, manter o blog tem sido cada vez mais recompensador. Escrevo sobre assuntos que me interessam e que acho que vão interessar aos leitores também. Gosto muito de saber que lhes fiz pensar, que ensinei algo novo, que influenciei alguém. Recebo ótimos comentários e leio todos, sempre. 

Portanto, obrigada! Vocês tornam escrever, que é uma das minhas atividades favoritas na vida, algo muito mais divertido, que realmente sinto vontade de fazer e compartilhar. Bonito isso, falem a verdade!

E fiquem felizes, hein: não sou romântica assim com qualquer um.

16 de julho de 2010

Frescuras de Quem Viaja para Fora

Desde antes de vir para o Canadá eu percebia que existem dois tipos de pessoas que viajam para fora. As que têm Frescura e as que não. Estar aqui só me ajudou a identificar melhor o que é frescura e o que não é.

Ficar colocando palavras do idioma estrangeiro no meio de conversas em português.
Totalmente desnecessário. É verdade que depois de muita exposição ao idioma às vezes o cérebro dá umas falhadas para lembrar uma palavra ou outra - mas daí a esse tipo de coisa:

Anyway, eu estava andando por lá e you know, aquele lugar é simplesmente amazing.

Poupe-me. 

Tudo do país estrangeiro é melhor.
Não é verdade. E as praias invejáveis que só o Brasil tem? O clima ótimo e variedade inacreditável de comidas boas? A pessoa que sofre de Frescuras de Quem Viaja para Fora não se importa com nada disso. Adquire um bronzeado verde-transparente-olha-só-dá-para-ver-as-minhas-veias, faz as três refeições do dia no McDonald's e fala para quem quiser ouvir que neve é a coisa mais maravilhosa que já presenciou. 

A verdade: É muito chato ficar sem sol, é decepcionante não achar comidas que deveriam existir no mundo inteiro como as que eu descrevi no outro post, neve dá trabalho e só é legal nas primeiras 24h, depois fica monótono. 

Brasileiro faz tudo errado, Canadense/Americano/Francês/Inglês/etc é que faz as coisas direito.
Todos fazem coisas certas e erradas. Deveria ser óbvio, mas não é. A pessoa que tem Frescuras de Quem Viaja para Fora passa por uma lavagem-cerebral espontânea e quando volta para o Brasil todo mundo é idiota porque é de "terceiro mundo" e não sabe de nada da vida. 

Brasil é "Terceiro Mundo". 
("Subdesenvolvido", "em desenvolvimento" ou qualquer que seja o termo policamente correto da semana). 

Depois de conhecer um país considerado de "primeiro mundo", não há como negar as diferenças gritantes que esse rótulo representa. Chegar de avião no Brasil observando tudo de cima é feio de ver. É sujo e bagunçado, dá vergonha. Canadá não. Tudo organizado e verde (branco se for inverno). Não se veêm muitos mendigos na rua, o dinheiro é bem tratado, as praças e centros de recreação públicos são impecáveis. Ambulâncias são rápidas e polícia também. 

A pergunta é: precisa ser de primeiro mundo para ter tudo isso? Porque assim, a pessoa que sofre de Frescuras de Quem Viaja para Fora não joga lixo nas ruas da Suíça mas joga nas de São Paulo. Respeita os sinais de trânsito na Alemanha, mas ignora totalmente os do Brasil e ainda buzina ensurdecedoramente todas as vezes que se sentir contrariada. Interessante, né?!

Estar em territórios estrangeiros é muito bom. Pessoas diferentes, lugares diferentes, clima, preços, animais, carros, árvores, cabelos, sapatos - tudo diferente. É uma experiência que eu recomendo para todo mundo. O problema, no meu ponto de vista, é ir para outro país, aprender esse monte de coisa nova e esquecer de trazê-las consigo de volta para o Brasil. 

Frescuras de Quem Viaja para Fora é doença contagiosa. Basta uma pessoa infectada recém-chegada de viagem começar a conversar com outras para o vírus se espalhar. "- Isso não é vida", "- Tem que sair daqui mesmo", "- Esse país é uma merda". 

Mas ó, tem cura. É um remedinho básico que geralmente pode ser encontrado lá no fundo do seu cérebro. Chama-se Consciência.  O genérico chama-se Humildade. Os médicos recomendam doses diárias. É simples: Lembre-se de que o Brasil é o seu país e consequentemente, sua responsabilidade também. Não importa o quão melhor você acha que determinado país é, Brasil continua sendo o lugar de onde você realmente é. Merece um pouco de respeito.


Obs.: E eu nem me considero patriota, hein. Não mesmo.