Atravessar a rua na frente de um carro que parou exclusivamente para você passar.
O constrangimento começa na dúvida se o motorista vai parar ou não. Você já fica com aquela cara de idiota, meio que querendo andar logo, meio que querendo ser legal e esperar. Aí o motorista pára e faz aquele sinal desprezível de "vai, anda" com a mão. Só que nesse momento, por motivos adversos, acontece de você não estar olhando para o carro e portanto, não saber que já pode passar.
Quando você volta a olhar para o carro, percebe que o motorista já está sinalizando que você pode ir há algum tempo e tenta andar rapidinho para compensar. Tropeça e, durante o movimento, lembra que seria gentil agradecer a paciência alheia. Não sabe se sorri, se manda um jóinha, se bate palma, se realiza um duplo twist carpado (...). Na dúvida, você faz um pouco de cada e finaliza sua performance de modo memorável: batendo de frente com outra pessoa.
Terminar uma conversa com outro dono de cachorro.
Você sai para passear com o cão e vê alguém fazendo a mesma coisa, caminhando em sua direção. O momento do encontro já é meio tenso, porque tanto você quanto a outra pessoa tentam evitar que um cachorro veja o outro, puxando-os discretamente. Não adianta. Enquanto a cheiração canina acontece, o diálogo começa e termina num período de trinta segundos - tempo suficiente para as coleiras virarem um nó digno do reconhecimento escoteiro mundial. Desfaz-se o nó e eternos minutos de silêncio decorrem, você e a outra pessoa de cabeça baixa, fingindo observar a interação canina com interesse.
A situação fica insuportável e você começa a falar com o cachorro. "- Então tá, né Rex? Vamos para a casa, comer um biscoitinho?". Ele te ignora e, mentalmente, você tenta listar as vantagens de ter um cachorro, falhando miseravelmente. Mais uma vez, tenta chamar a atenção do bicho. "- Então vamos, Rex? Comer um biscoito?". A outra pessoa faz a mesma coisa. Desistindo lá pela quarta vez, ambos puxam os respectivos cachorros e momentos antes de sair correndo em busca da liberdade, você lembra que é boa pessoa, educada. Desviando o olhar entre o cão e dono, diz"- Hm, tchau, então. A gente se vê (daqui a cinco anos, quando eu sair para passear com o Rex de novo, em Júpiter)".
Não ser entendido por um atendente do McDonald's
A fila é grande. Você muda todos os ingredientes do Big Mac desde que se conhece por gente. Dois atendentes estão disponíveis: a gerente e um moleque proveniente direto dos confins do universo, na última fase do treinamento. Você faz os cálculos para descobrir com qual vai cair, e ufa, gerente. Sua vez chega e tanto um quanto outro estão ocupados. Ironias do destino, o cliente do moleque pega o troco mais rápido e você será atendido por ele. Ou seja, né - adeus conceito fast food. Você pede o básico e vai eliminando item por item indesejado, substituíndo-os por outras coisas. Menciona mais de uma vez que não quer queijo. Termina o monólogo gloriosamente com "e para beber, uma Sprite, por favor". Isso tudo contemplando os brinquedinhos do Mc Lanche Feliz. Percebendo um silêncio que não deveria estar acontecendo, você vira para o atendente. Vai ter que repetir o pedido.
Enquanto isso, a fila aumenta e a pessoa que está sendo atendida pela gerente te olha com impaciência achando, assim como todo o resto da fila, que é você o causador da demora. Depois de repetir tudo que já tinha falado, inclusive que não quer queijo, você ainda não sente a segurança necessária por parte do atendente. Pede para ele confirmar o que você disse. Corrige todos os erros, paga e espera a comida chegar. O próximo da fila, bufando, começa a fazer o pedido dele. O seu finalmente chega e, antes de retirá-lo, você confere.
Veio com queijo.