Desde antes de vir para o Canadá eu percebia que existem dois tipos de pessoas que viajam para fora. As que têm Frescura e as que não. Estar aqui só me ajudou a identificar melhor o que é frescura e o que não é.
Ficar colocando palavras do idioma estrangeiro no meio de conversas em português.
Totalmente desnecessário. É verdade que depois de muita exposição ao idioma às vezes o cérebro dá umas falhadas para lembrar uma palavra ou outra - mas daí a esse tipo de coisa:
- Anyway, eu estava andando por lá e you know, aquele lugar é simplesmente amazing.
Poupe-me.
Tudo do país estrangeiro é melhor.
Não é verdade. E as praias invejáveis que só o Brasil tem? O clima ótimo e variedade inacreditável de comidas boas? A pessoa que sofre de Frescuras de Quem Viaja para Fora não se importa com nada disso. Adquire um bronzeado verde-transparente-olha-só-dá-para-ver-as-minhas-veias, faz as três refeições do dia no McDonald's e fala para quem quiser ouvir que neve é a coisa mais maravilhosa que já presenciou.
A verdade: É muito chato ficar sem sol, é decepcionante não achar comidas que deveriam existir no mundo inteiro como as que eu descrevi no outro post, neve dá trabalho e só é legal nas primeiras 24h, depois fica monótono.
Brasileiro faz tudo errado, Canadense/Americano/Francês/Inglês/etc é que faz as coisas direito.
Todos fazem coisas certas e erradas. Deveria ser óbvio, mas não é. A pessoa que tem Frescuras de Quem Viaja para Fora passa por uma lavagem-cerebral espontânea e quando volta para o Brasil todo mundo é idiota porque é de "terceiro mundo" e não sabe de nada da vida.
Brasil é "Terceiro Mundo".
("Subdesenvolvido", "em desenvolvimento" ou qualquer que seja o termo policamente correto da semana).
Depois de conhecer um país considerado de "primeiro mundo", não há como negar as diferenças gritantes que esse rótulo representa. Chegar de avião no Brasil observando tudo de cima é feio de ver. É sujo e bagunçado, dá vergonha. Canadá não. Tudo organizado e verde (branco se for inverno). Não se veêm muitos mendigos na rua, o dinheiro é bem tratado, as praças e centros de recreação públicos são impecáveis. Ambulâncias são rápidas e polícia também.
A pergunta é: precisa ser de primeiro mundo para ter tudo isso? Porque assim, a pessoa que sofre de Frescuras de Quem Viaja para Fora não joga lixo nas ruas da Suíça mas joga nas de São Paulo. Respeita os sinais de trânsito na Alemanha, mas ignora totalmente os do Brasil e ainda buzina ensurdecedoramente todas as vezes que se sentir contrariada. Interessante, né?!
Estar em territórios estrangeiros é muito bom. Pessoas diferentes, lugares diferentes, clima, preços, animais, carros, árvores, cabelos, sapatos - tudo diferente. É uma experiência que eu recomendo para todo mundo. O problema, no meu ponto de vista, é ir para outro país, aprender esse monte de coisa nova e esquecer de trazê-las consigo de volta para o Brasil.
Frescuras de Quem Viaja para Fora é doença contagiosa. Basta uma pessoa infectada recém-chegada de viagem começar a conversar com outras para o vírus se espalhar. "- Isso não é vida", "- Tem que sair daqui mesmo", "- Esse país é uma merda".
Mas ó, tem cura. É um remedinho básico que geralmente pode ser encontrado lá no fundo do seu cérebro. Chama-se Consciência. O genérico chama-se Humildade. Os médicos recomendam doses diárias. É simples: Lembre-se de que o Brasil é o seu país e consequentemente, sua responsabilidade também. Não importa o quão melhor você acha que determinado país é, Brasil continua sendo o lugar de onde você realmente é. Merece um pouco de respeito.
Obs.: E eu nem me considero patriota, hein. Não mesmo.
