A verdade é que eu não sou uma pessoa, digamos, comum. Nem hoje nem nunca.
Dentro da barriga da minha mãe participei inevitavelmente de todos os shows e apresentações que ocorreram durante o período. Com alguns meses de existência, dormia dentro do estúdio - do lado da bateria. Penteava o cabelo do guitarrista e esperava impaciente a chegada da saxofonista com o meu Kinder Ovo.
Com um ano e pouco já possuia as duas habilidades mais incríveis que uma mini pessoa pode ter: falar pelos cotovelos e andar com facilidade. Minha abordagem certeira era, segundo narram meus pais, '- Oi, meu nome é Cíntia, o que você tá fazendo?'.
Episódios no restaurante eram clássicos. Minha mãe sempre me encontrava sentada com desconhecidos, comendo batata frita. '- Ah, ela é sua filha?!', perguntavam encantados os doadores de comida. Sabe-se lá o que se passava na cabeça deles.
Quando tinha algo em torno de três anos, coloquei em xeque todas as convicções profissionais de um cozinheiro. Num momento de descuido dos meus pais, eu parti rumo à cozinha do restaurante. Lá, encontrei o cozinheiro, que me perguntou se eu queria experimentar o molho que estava preparando. O veredicto? '- Tá bom, mas o da minha mãe é melhor'. Ela conta até hoje. Estavam meus pais sentados tranquilamente, já acostumados com minhas caminhadas sem rumo, quando minha mãe me vê saindo da cozinha no colo do chef. '- Ela é filha de vocês?', perguntou. Até imagino o medo dos meus pais em responder a pergunta. '- É', responderam. '- Como assim o seu molho é melhor que o meu?!'.
Na escola, ainda em um dos 'prézinhos', fui adiantada um ano - acreditem se quiserem: eu era muito grande em comparação a eles e falava demais enquanto os outros só soltavam grunhidos e apontavam para pedir o que queriam.
Desde então sou um ano adiantada na minha vida. Mudei de escola quatro vezes. Em uma delas tive até que fazer teste para certificar que era do mesmo nível da turma que entraria. Nove e meio em português e nove em matemática, desculpaê. Antes de me inscrever para o vestibular (aos dezesseis), mudei de medicina para jornalismo e, na última hora, de jornalismo para Letras-Tradutor e Intérprete (!).
E aí essa semana estou acordando às seis e vinte da madrugada para ir trabalhar com a 'programação de férias'. Fico rouca, torço o tornozelo, derrubo crianças nos colchões da ginástica olímpica e as faço de travesseiro.
Sinceramente? Minha única reclamação plausível até agora é sobre ter de acordar cedo. Odeio.