2 de julho de 2008

Résumé

A verdade é que eu não sou uma pessoa, digamos, comum. Nem hoje nem nunca.

Dentro da barriga da minha mãe participei inevitavelmente de todos os shows e apresentações que ocorreram durante o período. Com alguns meses de existência, dormia dentro do estúdio - do lado da bateria. Penteava o cabelo do guitarrista e esperava impaciente a chegada da saxofonista com o meu Kinder Ovo.

Com um ano e pouco já possuia as duas habilidades mais incríveis que uma mini pessoa pode ter: falar pelos cotovelos e andar com facilidade. Minha abordagem certeira era, segundo narram meus pais, '- Oi, meu nome é Cíntia, o que você tá fazendo?'.

Episódios no restaurante eram clássicos. Minha mãe sempre me encontrava sentada com desconhecidos, comendo batata frita. '- Ah, ela é sua filha?!', perguntavam encantados os doadores de comida. Sabe-se lá o que se passava na cabeça deles.

Quando tinha algo em torno de três anos, coloquei em xeque todas as convicções profissionais de um cozinheiro. Num momento de descuido dos meus pais, eu parti rumo à cozinha do restaurante. Lá, encontrei o cozinheiro, que me perguntou se eu queria experimentar o molho que estava preparando. O veredicto? '- Tá bom, mas o da minha mãe é melhor'. Ela conta até hoje. Estavam meus pais sentados tranquilamente, já acostumados com minhas caminhadas sem rumo, quando minha mãe me vê saindo da cozinha no colo do chef. '- Ela é filha de vocês?', perguntou. Até imagino o medo dos meus pais em responder a pergunta. '- É', responderam. '- Como assim o seu molho é melhor que o meu?!'.

Na escola, ainda em um dos 'prézinhos', fui adiantada um ano - acreditem se quiserem: eu era muito grande em comparação a eles e falava demais enquanto os outros só soltavam grunhidos e apontavam para pedir o que queriam.

Desde então sou um ano adiantada na minha vida. Mudei de escola quatro vezes. Em uma delas tive até que fazer teste para certificar que era do mesmo nível da turma que entraria. Nove e meio em português e nove em matemática, desculpaê. Antes de me inscrever para o vestibular (aos dezesseis), mudei de medicina para jornalismo e, na última hora, de jornalismo para Letras-Tradutor e Intérprete (!).

E aí essa semana estou acordando às seis e vinte da madrugada para ir trabalhar com a 'programação de férias'. Fico rouca, torço o tornozelo, derrubo crianças nos colchões da ginástica olímpica e as faço de travesseiro.

Sinceramente? Minha única reclamação plausível até agora é sobre ter de acordar cedo. Odeio.

24 de maio de 2008

Imprevisíveis

1.

Eu, depois de mudar o cabelo e sem problemas na vida amorosa - E aí, mãe? O que achou?
Ela - 80% das mulheres que passam por uma desilusão amorosa mudam o cabelo.
Eu - !
Ela - Mas ficou bom, sim. Gostei.
Eu - Mãe, de onde você tirou essa estatística?
Ela, convicta - Inventei.

2.

Eu, perdendo uma ótima oportunidade de ficar calada - Nossa pai, é a décima quinta vez que eu ouço você contar essa história.

Ele, para as outras pessoas - Vocês já ouviram essa história?

Outras pessoas - Não.

Ele, para mim - Viu? Fica quieta aí, Cíntia.


3.

Eu, que nunca poderia imaginar a resposta que ela me daria - Pára de se admirar nesse espelho, criatura.

Minha irmã, sem desviar os olhos do espelho - É que você não sabe o que eu estou pensando.

10 de maio de 2008

Sobre o Dia das Mães

Post guardado desde o dia 10 e publicado hoje, dia 24 - Alguns dias atrasado.

[Reflexão]

Dia das Mães é uma data que reúne avós em casa. Uma vó equivale a duas mães. Fazendo as contas: se você tem duas avós você fica com o equivalente a quatro mães além da sua original. Cinco mães. Um vezes cinco 'Cíntia, você precisa se alimentar direito' e 'Cíntia, você precisa dormir'

A diferença entre vó e mãe é que vó assiste, religiosamente, o 'Programa do Raul Gil'. Da última vez que eu assisti esse negócio ele durava, sei lá, uma hora e meia. Agora é a tarde inteira de 'prodígios da música brasileira raulgilanos'. Na verdade, mãe que é mãe também tem suas particularidades televisivas, tipo Palmirinha e afins. Bom.

[.]

Outro dia minha mãe estava falando sobre o processo 'gravidez'. A partir dos três/quatro meses nós, proles, começamos a nos mexer significativamente lá dentro.

- É uma das coisas mais legais da gravidez.
- Tipo um alien de um lado para o outro dentro de você?

Silêncio.

- É.

Feliz Dia das Mães, mãe. Fala se eu não sou o alien mais legal que você já teve na sua barriga?

11 de abril de 2008

A Crocodila Baiana - segundo episódio

Da série Crocodila Baiana - Reflexões, Explicações e Conclusões.

#6

- Ô Cintía*, você chegou a ver a explosão de chocolate que aconteceu em Beberly Hiutom?

- Onde?

- Beberly Hiutom [escrevendo em um papel].

- ...

- Chegou a ver?

*Cintía = Sim, tia. [!]

#7

- Professora, por que eu não sou uma formiga? Sério, se eu fosse uma formiga eu não precisava estudar.

- Você não sabe da vida das formigas.

#8

- Sobre o que é esse livro?

- Sobre o cérebro. Arrancaram o meu cérebro, por isso sou burro.

#9

- Eu preciso tirar minhas dúvidas de Ciências.

- Por quê?

- Porque eu costumo dormir nas aulas.

21 de março de 2008

A Crocodila Baiana

Como havia prometido, o material do caderno até então confidencial será compartilhado com meus prezados leitores (quem melhor, não é mesmo?). Depois de muita reflexão tentando escolher entre escrever um poema ou uma nova enciclopédia, optei por criar uma série que batizei de 'Crocodila Baiana' por motivos que vocês logo entenderão. Dentro dela, dividirei as ocorrências anotadas no caderno em tópicos. Enfim, como teoria é sempre chata e no final a gente só aprende direito com a prática, vamos ao que interessa.

Da série Crocodila Baiana, Certas coisas são óbvias.

#1

- Prô, posso limpar minha borracha na parede?
- Não, né. Limpa embaixo da mesa. Se você limpar na parede vai sujar a pobre coitada.
- Ah, e daí? Eles nunca arrumam a quadra.

#2

- Ô prô! Eu vou contar pra coordenadora que o Fulano não trouxe a apostila de matemática dele.
- E por que você está mexendo nas coisas dele?
- Pra copiar a lição ué.

#3

Contextualizando: A questão na apostila pedia para que o aluno explicasse o motivo de Bete e Joelma terem descido, juntas, as escadas.

'Bete desceu e Joelma desceu porque são muito amigos e amigos nunca se separam.'

Enquanto eu lia a resposta, ele me olhava com aquela de 'por-favor-me-deixa-ir-embora'. Terminei de ler e olhei para ele, atravessando seus olhos e perfurando sua alma:

- Você sabe muito bem que essa não é a resposta certa.
- É, só que essa é a minha opinião e uma opinião não pode estar totalmente errada. Olha minha outra lição, vai.

#4

- Sabe o que é adultério, prô?

Eu, pensando: Será que foi uma retórica ou será que ele está realmente querendo saber o que é? Respondo que sim e saio andando, simplesmente ignoro ou explico o que é? Até onde esse assunto pode chegar e por que será que surgiu?

- Não, o que é?
- É um lugar onde só os adultos podem ir. Proibido para menores de 18 anos.

Eu, pensando: Ufa.

#5

Observação: De longe, eu percebi que ele estava concentrado demais no que estava fazendo. Concluí acertadamente que, fosse o que fosse, não havia nem chance dele estar fazendo lição.

- Já terminou sua lição?
- Peraí, deixa eu terminar a Crocodila Baiana. Aliás, [virando a página] você conhece o Doutor Demoníaco Boca de Caçapa [me entregando o caderno]?

Os desenhos contidos nas páginas são tão bons quanto a convicção dele nos nomes das personagens - que ele tava inventando naquele momento, com certeza.



Viram? Quando eu falei da possibilidade de escrever um romance com o material produzido, falava sério.