11 de abril de 2008

A Crocodila Baiana - segundo episódio

Da série Crocodila Baiana - Reflexões, Explicações e Conclusões.

#6

- Ô Cintía*, você chegou a ver a explosão de chocolate que aconteceu em Beberly Hiutom?

- Onde?

- Beberly Hiutom [escrevendo em um papel].

- ...

- Chegou a ver?

*Cintía = Sim, tia. [!]

#7

- Professora, por que eu não sou uma formiga? Sério, se eu fosse uma formiga eu não precisava estudar.

- Você não sabe da vida das formigas.

#8

- Sobre o que é esse livro?

- Sobre o cérebro. Arrancaram o meu cérebro, por isso sou burro.

#9

- Eu preciso tirar minhas dúvidas de Ciências.

- Por quê?

- Porque eu costumo dormir nas aulas.

21 de março de 2008

A Crocodila Baiana

Como havia prometido, o material do caderno até então confidencial será compartilhado com meus prezados leitores (quem melhor, não é mesmo?). Depois de muita reflexão tentando escolher entre escrever um poema ou uma nova enciclopédia, optei por criar uma série que batizei de 'Crocodila Baiana' por motivos que vocês logo entenderão. Dentro dela, dividirei as ocorrências anotadas no caderno em tópicos. Enfim, como teoria é sempre chata e no final a gente só aprende direito com a prática, vamos ao que interessa.

Da série Crocodila Baiana, Certas coisas são óbvias.

#1

- Prô, posso limpar minha borracha na parede?
- Não, né. Limpa embaixo da mesa. Se você limpar na parede vai sujar a pobre coitada.
- Ah, e daí? Eles nunca arrumam a quadra.

#2

- Ô prô! Eu vou contar pra coordenadora que o Fulano não trouxe a apostila de matemática dele.
- E por que você está mexendo nas coisas dele?
- Pra copiar a lição ué.

#3

Contextualizando: A questão na apostila pedia para que o aluno explicasse o motivo de Bete e Joelma terem descido, juntas, as escadas.

'Bete desceu e Joelma desceu porque são muito amigos e amigos nunca se separam.'

Enquanto eu lia a resposta, ele me olhava com aquela de 'por-favor-me-deixa-ir-embora'. Terminei de ler e olhei para ele, atravessando seus olhos e perfurando sua alma:

- Você sabe muito bem que essa não é a resposta certa.
- É, só que essa é a minha opinião e uma opinião não pode estar totalmente errada. Olha minha outra lição, vai.

#4

- Sabe o que é adultério, prô?

Eu, pensando: Será que foi uma retórica ou será que ele está realmente querendo saber o que é? Respondo que sim e saio andando, simplesmente ignoro ou explico o que é? Até onde esse assunto pode chegar e por que será que surgiu?

- Não, o que é?
- É um lugar onde só os adultos podem ir. Proibido para menores de 18 anos.

Eu, pensando: Ufa.

#5

Observação: De longe, eu percebi que ele estava concentrado demais no que estava fazendo. Concluí acertadamente que, fosse o que fosse, não havia nem chance dele estar fazendo lição.

- Já terminou sua lição?
- Peraí, deixa eu terminar a Crocodila Baiana. Aliás, [virando a página] você conhece o Doutor Demoníaco Boca de Caçapa [me entregando o caderno]?

Os desenhos contidos nas páginas são tão bons quanto a convicção dele nos nomes das personagens - que ele tava inventando naquele momento, com certeza.



Viram? Quando eu falei da possibilidade de escrever um romance com o material produzido, falava sério.

13 de março de 2008

Duas notícias

Uma boa e uma ruim. A boa é que só há uma notícia ruim. A ruim é que estou sem imaginação até para pensar numa notícia ruim. 

Eis que nas cinzas percebe-se um movimento. Inesperado, singelo e discreto. O tempo de apenas um movimento no ponteiro mais rápido do relógio de parede foi o que separou o pó inanimado da criatura que ressurgiu dele: essa que vos escreve.

Estou viva.

Uma novidade é que tenho um caderno específico somente para anotar pérolas de alunos. Logo hei de compartilhá-las com vocês. Só não sei ainda se faço um 'Top10', uma votação, uma dissertação, ou ainda se escrevo um romance, uma música ou quem sabe uma peça de teatro. Talvez eu seja capaz de fazer todas essas coisas. É impressionante a quantidade de material que eles produzem para eu anotar nesse caderno.

Outra novidade é que minha vida acadêmica finalmente parece estar entrando nos trilhos. Cheguei à conclusão definitiva de que primeiro ano de faculdade é filtro para os perdidos (leia-se '- Bom, terminei o colegial. Agora tenho que fazer faculdade. Uni-du-ni-tê...'). Quase não sobra gente dessa [laia] área no segundo ano. Good for us all - menos gente incompetente/frustrada entregando serviços porcos/malacabados para clientes, menos clientes nervosos com serviços porcos/malacabados entregues por gente incompetente/frustrada etc.

Quanto às informações sobre minha vida amorosa: passe na banca mais próxima de sua residência e informe-se. Se não encontrar, ligue para a minha mãe que ela conta tudo.

18 de fevereiro de 2008

Só segunda-feira

Mudei de emprego. Clima diferente, novos ares, tudo o que eu queria. Certas coisas a gente só percebe depois que mudam radicalmente, né? Não tem jeito.

A parada é que agora trabalho num colégio. Principalmente com Ensino Fundamental. Eles são uns pestes - isso não se pode negar. Mas nossa, são engraçados. Quando dá a minha hora de ir embora eu saio com dor de cabeça, mas com dor na barriga também, de rir.

Uns dias antes de começar lá, fui visitar a sala deles. Selva. A coordenadora me olhou piedosamente; 'mal sabe ela das coisas pelas quais já passei', pensei.

Em uma semana de trabalho já tive parte do meu vocabulário renovado. Naruto, Hannah Montana, Nerds. E eles explicam meio sem paciência, como se, em vez de ter perguntado o que diabos significa 'naruto', tivesse perguntado, sei lá, o que é Timão e Pumba.

Eles também já não nos chamam de 'professor(a)', nem 'psor(a)'. Agora é 'prô'. Prô Cíntia. Fofo, né?!

Eu sei que hoje eu estava lá, junto das duas outras professoras, atendendo uns quinze alunos simultaneamente, quando, não mais que de repente, materializou-se um ser - era um outro aluno que simplesmente surgiu, bem na minha frente. Ele me olhava nos olhos, profundamente:

'- Prô, esse lugar é um inferno.'

Morri, né. Ele estava falando aquilo por motivos óbvios. Calor, mini-pessoas gritando, três professoras de um lado para o outro, meteoros caindo, blocos de gelo se desfazendo... O próprio Apocalipse. Detalhe: Hoje é só segunda-feira.

24 de janeiro de 2008

Dezoito

E daí que vai ser meu aniversário esse sábado, né. Tipo dezoito anos no lombo.

Mas olha só, nem adianta vir com aquela coisa de 'aaahh, agora você já é adulta, gente grande, pode ser presa, pode isso, pode aquilo, e legalmente hein! Uhu, é nóis' - garanto, confirmo e faço até um gráfico para vocês sobre como nada vai mudar na minha nova vida de maioridade. Plastifico o gráfico, até.

Antes era aquela coisa de 'Não, Cíntia, você não vai' - aí depois de horas com tentativas desesperadas e inúteis de persuasão (batalha pais vs. filhos é sempre 90% perdida já antes de começar né; filhos são grandes perdedores desde o início, essa que é a verdade - isso até se tornarem pais, obviamente), a conclusão era: 'Cíntia, você não vai por diversos motivos (... - lista interminável de motivos) e além de tudo, você tem só quinze/dezesseis/dezessete anos!'.

De agora em diante vai ser assim: 'Não, Cíntia, você vai. Dezoito anos, né? É, não mesmo. Não vai' e fim.

Graaande vantagem, fala aí se não é para mudar a vida de qualquer garota pacata de interior?!

Agora me diz: Como que eu e meus dezoito anos conseguiremos ser presos desse jeito? Porque eu, particularmente, acho que se é para ir pra prisão comer 'McNuguéti' (assistam o filme 'Meu nome não é Johnny'), tem que ser por um crime nobre. E crime nobre, na minha concepção, envolve sair na calada da noite, com companhias estranhas, numa moto negra da cor das trevas etc. Vai lá falar isso pros meus pais. '- Noite, estranhas, moto. Dezoito anos, né? Ah tá, e aí, já lavou a louça?'.

Ter dezoito anos é bom para impressionar crianças. Se você juntar dezoito anos e segundo ano da faculdade então! Os olhinhos deles até brilham.

Nota mental: Meu projeto agora vai ser pensar em mais vantagens de se ter dezoito anos, não é possivel que seja só levar vantagem de criança. Não pode ser.