26 de outubro de 2007

Na rua

Vira e mexe eu volto a pé da faculdade, né?! Um saco, chego em casa morrendo. Agora não mais, afinal, não há nada nessa vida com que a gente não se acostume.

Pois então. Quando a bateria do aparelho super tecnológico de música acaba, não resta muito a não ser ouvir os doces sons da metrópole.

As figuras que se vê na rua são incríveis, já falei sobre isso antes. Mas a situação fica ainda mais bizarra quando você ouve o que elas estão falando. Eis que surgem, andando rapidamente no sentido contrário, dois senhores, tipo cinqüenta e tantos anos. De longe já dava para perceber que a conversa estava interessante. No momento em que passaram por mim, o mais velho estava concluindo o raciocínio:

"- Só que agora, né, me fodi na bosta..."

Pois eu parei no meio da rua, saquei o caderno e a caneta e anotei. Rindo. Muito. Que será que aconteceu de tão grave para que ele esteja nessa situação agora? Como é que se resolve esse problema, hein?

Pensando em quantas coisas eu já não deixei de ouvir devido à música sempre no talo, segui meu caminho. Foi então que, já perto de casa, me deparei com dois pedreiros, um com cara de mais importante que o outro. Um fechando o portão, o outro abrindo o carro.

"- Então, eu pego um marmitex, lá, pode ser?

- Não."

Andei mais um pouco. Saquei o caderno e a caneta novamente. O pedreiro menos importante certamente estava até aquele momento procurando as pernas que foram tão rapidamente quebradas pelo outro.

20 de setembro de 2007

Desvendei a culinária

- Você vai saber quando o bolo estiver pronto. Aí você passa a faca nas laterais e vira ele, para tirar da forma. Aí, assim, a parte de cima é maior que a de baixo, então quando você virar o bolo, a parte menor vai ficar para cima. Se você quiser que a parte menor fique para baixo, você vira ele de novo, entendeu?

- Mãe, pra quê eu vou querer que a parte menor fique para baixo?! Não faz sentido!

- É, tem razão.

Depois de mais algumas detalhadas explicações sobre a cobertura do bolo, que eu deveria terminar de preparar, achei a saga 'bolo sendo preparado sem mãe em casa' estaria acabada. Concluí para ela, meio que confirmando se havia entendido tudo:

- É só tirar a parada e jogar o negócio em cima, então. - disse, enquanto puxava a orelha do cão.

Silêncio.

Olhei para ela, que me analisava. Seu olhar era uma mistura de espanto com desespero. Em sua cabeça, o pensamento era, com certeza, alguma coisa parecida com: 'Eu estou prestes a sair de casa deixando um bolo a ser terminado por ESTA criatura a minha frente - isso não vai prestar'.

Minha conclusão foi simples, admito. Mas correta, afinal era só fazer isso mesmo.

E ficou bom, hein.

13 de setembro de 2007

Ah, a família

Quem freqüentava o meu antigo blog sabe que minha família não é das mais normais - afinal, influência genética é a única justificativa plausível para minha personalidade, digamos, distinta.

Pois então. Família que é família tem esquisitices. Excessos a parte, os meus prezados parentes se utilizam de algumas expressões ligeiramente incomuns. Algumas são gírias velhas, outras são ditados modificados, outras nem uma coisa nem outra - inventadas por eles mesmos. Nunca teria reparado nisso, se não fosse por ter falado uma delas outro dia, e as pessoas com quem eu estava conversando ficarem com aquela cara de interrogação infundada. Continuei meu monólogo, sem hesitar.

Depois, já em casa, pensei: "- Eu não deveria esperar que as pessoas entendessem as frases feitas do meu vô. Porque diabos eu usei uma frase feita do meu vô?" - e aí quem ficou com cara de interrogação fui eu.

Após esse episódio, comecei a prestar atenção nas falas da família, principalmente do meu vô e do meu pai, é incrível.

Eis alguns exemplos:

Sambascuá - geralmente essa expressão é usada como adjetivo para qualificar um menino bobo, desajeitado. Às vezes, pode variar com o apelido carinhoso 'sambas'.

Não bato palma - pronúncia correta: não bato parma. Expressão equivalente à 'não gosto muito'; 'não sou fã'. Exemplo de utilização: "- Vô, você gosta dessa bala?" "- Ah, não bato parma."

Fiofó do mundo - essa é sempre usada com uma entonação forte, para dar o devido peso à distância de um lugar ao outro. Equivale à também nada nova 'lá aonde o Judas perdeu as botas'. Geralmente a ouço quando eu peço para o meu vô me levar em algum lugar.

Nem a pau, Juvenal - essa saiu inesperadamente da boca da minha mãe. Ela falou de um jeito tão convicto e determinado que eu nem insisti no que estava pedindo.

Elas são estranhas mesmo, ou sou eu?

25 de agosto de 2007

Os Coisinhas Fofas

Nos remotos tempos de escola, alguns professores diziam que nunca imaginavam que um dia seriam professores, mas que isso simplesmente aconteceu e que depois que começaram já não se imaginavam deixando de lecionar. Aí eu pensava: 'af, isso nunca vai acontecer comigo'.

Quem diria que eu passaria a ouvir, muito mais constantemente do que jamais poderia pensar, frases como: '- Aaaai, teacher, espera! Não apaga a lousa aindaaaa!', ou 'teacher, posso escrever de lápis?', ou ainda 'ó teacher, não fiz esse exercício porque não entendi, tá?'.

Tempo livre é ouvir música prestando atenção na gramática e no vocabulário da letra, avaliando se dá para usar na aula ou não. Dor de cabeça é surpresa quando não acontece e mobilidade no pescoço é luxo. Mas aí, no final da aula, vem aquela coisa fofa, com metade do meu tamanho e cabelinho irritantemente liso dizer tchau e me dar um beijinho. '- Bye teacher!'.

Ai, ai.

14 de julho de 2007

Vida noturna

Situação: Voltando para casa com a família, lá pelas tantas.
Ambiente: Minha irmã começando a dormir ao lado, meus pais tagarelando incansavelmente sobre qualquer coisa e eu na minha bolha - junto a minha mais nova aquisição tecnólogica que toca músicas, olhando para a rua. Pensando.

Só na madrugada você tem oportunidade de olhar para o lado e ver o chefe de alguém, provavelmente carrancudo e rabugento durante a semana toda, voltando de uma festa, com a camisa aberta até o quarto botão, com um colar capenga de mamona piscante pendurado no pescoço, rachando o bico de alguma piada muito sem graça que o cara no banco do passageiro estava contando. Quantas pessoas lá do trabalho dele não pagariam para ver essa cena. Se eu contasse eles não iam acreditar.

É durante a madrugada que você pode avaliar a vaidade que você não possui. Gente, sério, tava tarde e a menina estava impecável, chapinha intacta. Pena que ela não fazia idéia do que encontraria no banheiro de posto de gasolina que estava entrando. Adeus, rímel.

Nesse horário você vê que não entende certas coisas: Carros passam por você com uma velocidade inexplicavelmente alta. Meu, já são três da manhã, se não chegou até agora, não vai chegar mais, não adianta correr, animal.

Também desconheço o motivo real das aglomerações em postos de gasolina. As pessoas simplesmente param seus carrinhos, saem deles e ficam lá, conversando?

Existem ainda as questões políticas. Os sistemas de radar, por exemplo. Ô troço que funciona, né?! Tá chovendo canivete e o radar tá lá, com suas luzinhas vermelhas irritantes. Tudo bem que você não precisa ficar correndo na velocidade da luz constantemente como aquele ser citado acima, mas ter de descer uma rampa gigante como aquela a míseros 40km/h é praticamente uma censura ao espírito rebelde que a noite sugere. Se o governo gastasse essa energia com coisas que realmente fossem importantes, como a educação, as pessoas seriam ensinadas já na escola que só se pode aumentar um pouco a velocidade do carro nas rampas.

Mas não posso ser injusta. Deixo aqui o meu agradacimento ao prefeito Kassab, por ter tido a brilhante idéia de retirar os outdoors da cidade. Menos um momento constrangedor na minha lista. Sei lá onde, depois de um túnel aí, tinha um outdoor-mais-gigante-impossível que sempre me deixava envergonhada. Era a propaganda de uma boate (ou seja lá como for que os jovens chamam esse tipo de lugar hoje em dia) que continha a foto de um homo sapiens do sexo feminino, mas que para mim sempre se pareceu mais com um pedaço de carne de lingerie. Vergonha pelo bife, digo, mulher.

Ainda pensando sobre o tópico tecnologia e governo, e esses semáforos inteligentes, hein?! Conceito de inteligência nesse país é meio estranho mesmo, mas a função deles não é só mudar de cor ao mesmo tempo?

E também pensei em quem olhava de fora, que via uma menina fazendo movimentos estranhos ao som de algo que só ela ouvia, com um bloco de papel e uma caneta, escrevendo freneticamente alguma coisa que devia ser muito interessante, afinal, estava sendo escrita dentro de um carro com mais três pessoas, uma babando, outras duas falando sem parar, às três da madrugada.