Situação: Voltando para casa com a família, lá pelas tantas.
Ambiente: Minha irmã começando a dormir ao lado, meus pais tagarelando incansavelmente sobre qualquer coisa e eu na minha bolha - junto a minha mais nova aquisição tecnólogica que toca músicas, olhando para a rua. Pensando.
Só na madrugada você tem oportunidade de olhar para o lado e ver o chefe de alguém, provavelmente carrancudo e rabugento durante a semana toda, voltando de uma festa, com a camisa aberta até o quarto botão, com um colar capenga de mamona piscante pendurado no pescoço, rachando o bico de alguma piada muito sem graça que o cara no banco do passageiro estava contando. Quantas pessoas lá do trabalho dele não pagariam para ver essa cena. Se eu contasse eles não iam acreditar.
É durante a madrugada que você pode avaliar a vaidade que você não possui. Gente, sério, tava tarde e a menina estava impecável, chapinha intacta. Pena que ela não fazia idéia do que encontraria no banheiro de posto de gasolina que estava entrando. Adeus, rímel.
Nesse horário você vê que não entende certas coisas: Carros passam por você com uma velocidade inexplicavelmente alta. Meu, já são três da manhã, se não chegou até agora, não vai chegar mais, não adianta correr, animal.
Também desconheço o motivo real das aglomerações em postos de gasolina. As pessoas simplesmente param seus carrinhos, saem deles e ficam lá, conversando?
Existem ainda as questões políticas. Os sistemas de radar, por exemplo. Ô troço que funciona, né?! Tá chovendo canivete e o radar tá lá, com suas luzinhas vermelhas irritantes. Tudo bem que você não precisa ficar correndo na velocidade da luz constantemente como aquele ser citado acima, mas ter de descer uma rampa gigante como aquela a míseros 40km/h é praticamente uma censura ao espírito rebelde que a noite sugere. Se o governo gastasse essa energia com coisas que realmente fossem importantes, como a educação, as pessoas seriam ensinadas já na escola que só se pode aumentar um pouco a velocidade do carro nas rampas.
Mas não posso ser injusta. Deixo aqui o meu agradacimento ao prefeito Kassab, por ter tido a brilhante idéia de retirar os outdoors da cidade. Menos um momento constrangedor na minha lista. Sei lá onde, depois de um túnel aí, tinha um outdoor-mais-gigante-impossível que sempre me deixava envergonhada. Era a propaganda de uma boate (ou seja lá como for que os jovens chamam esse tipo de lugar hoje em dia) que continha a foto de um homo sapiens do sexo feminino, mas que para mim sempre se pareceu mais com um pedaço de carne de lingerie. Vergonha pelo bife, digo, mulher.
Ainda pensando sobre o tópico tecnologia e governo, e esses semáforos inteligentes, hein?! Conceito de inteligência nesse país é meio estranho mesmo, mas a função deles não é só mudar de cor ao mesmo tempo?
E também pensei em quem olhava de fora, que via uma menina fazendo movimentos estranhos ao som de algo que só ela ouvia, com um bloco de papel e uma caneta, escrevendo freneticamente alguma coisa que devia ser muito interessante, afinal, estava sendo escrita dentro de um carro com mais três pessoas, uma babando, outras duas falando sem parar, às três da madrugada.