Ela morde a minha bochecha. Forte. Desde sempre.
A tia Sonia também faz o único macarrão que eu realmente gosto de comer. Nem eu nem ela sabemos com certeza, mas achamos que ela é redatora, uma vez que produz e revisa textos. Meio que escreve livros também, na verdade. Independente do nome da profissão, o negócio é para ela que você tem que ligar quando tiver dúvidas de Língua Portuguesa.
Quando eu era pequena e ainda morava em Florianópolis com meus pais, ela foi lá nos visitar. Se hoje em dia você pede para ela descrever a viagem, a palavra é uma só: "inferno". Ela conta que eu e o meu primo, no auge da nossa insuportavelzisse mirim, brigamos do momento em que nos vimos até o em que ela resolveu ligar para o aeroporto para tentar entrar no próximo vôo disponível de volta para São Paulo.
Dessa história eu só lembro de ter lutado muito para conseguir os lápis de cor do meu primo (com sucesso) e da tia Sonia lendo gibi da Turma da Mônica todo dia para mim, antes de dormir. Ela mudava um pouco a voz, reproduzia as onomatopéias e lia as histórinhas até o final. Eu sempre ficava querendo mais.
Quando voltamos para São Paulo, dessa vez com uma quarta integrante na família também conhecida aqui no blog como "minha irmã", nos mudamos para o prédio em que a tia morava. Também entrei na escola em que meu primo estudava e de vez em quando íamos todos juntos a pé para a aula. No caminho, a tia contava histórias do vô Eládio e parava numa loja de bijuterias comigo para ficarmos olhando a vitrine enquanto meu primo e a Stella disparavam na nossa frente. Foi num desses dias, na volta da escola, que o épico episódio "- Você veio de carro ou de Fusca, tio?" aconteceu - e a tia tava lá, rachando o bico da eterna falta de habilidade diplomática da minha irmã.
Também foi nessa época que ela me deu meu primeiro diário. Escrevi nele religiosamente até as últimas páginas e acredito que foi nesse período que descobri que gostava de escrever.
Dois anos depois, o primeiro livro do Harry Potter foi lançado. A tia comprou logo e assim que terminou de ler, emprestou pra mim. Meus pais e eu devoramos cada página (Harry Potter foi o primeiro livro que li com gosto) e ao terminar estava oficialmente viciada na série que nos faria repetir o processo mais seis vezes. Conforme os filmes foram sendo lançados, mesma coisa. Assim que a tia ouvia que o filme começaria a ser exibido no Brasil, ligava para minha mãe para tentarmos combinar de ir ao cinema todos juntos.
A tia Sonia me apresentou à Agatha Christie, Friends e à Victoria's Secret. Me ensinou o uso correto dos "porquês", discutiu crase, sujeito e predicado comigo por horas no telefone. Já foi chata comigo e eu já fui chata com ela. Pacientemente, me ouviu reclamar sobre os mais variados assuntos, nas mais variadas horas. Já me contou histórias inacreditáveis sobre a nossa família e já levantou cedo comigo para irmos caminhar na praia. Me ligou uma vez pedindo opinião sobre um texto que ela tinha escrito e sempre termina nossas conversas me mandando dizer coisas do gênero "amo muito você, titia, você é a luz do meu viver, o sol do amanhecer".
Ela é leitora VIP desse blog. De tempos em tempos, nos ligamos seja via telefone ou Skype e ela lê os textos daqui em voz alta para mim. Ri, acha uns erros que deixei passar, se atrapalha com o computador "- Cíntia, mas como eu volto naquela página?! Alguém vem ver aqui pra mim!", conta histórias parecidas que aconteceram com ela, diz que só vai ler mais um, dá umas travadas nos meus neologismos, diz que estou escrevendo muito bem e ri mais. A tia Sonia se diverte com as coisas que escrevo de uma maneira tão recompensadora que tem vezes que eu já escrevo pensando na reação dela.
Essa semana ela foi ao médico. Ele disse pra ela a pior coisa que um médico pode dizer para uma pessoa. Ele disse que as notícias não eram boas. O médico disse que ela está doente.
A tia Sonia está doente.
Ela vai passar por uma cirurgia extremamente séria em breve e essa categoria de cirurgia "extremamente séria" é o que é. Assustadora e intimidante.
Apesar de já ter conversado com você, tia, eu achei que escrever seria a melhor maneira de expressar tudo que passou pela minha cabeça quando soube que você está doente. Pensando sobre essas coisas que coloquei no texto e lembrando das muitas outras histórias que temos para contar foi que percebi o quanto você realmente me influenciou desde quando eu era um cotoco de gente que só sabia dar ordens. Você foi uma grande subsidiária para o desenvolvimento de talentos que sempre estiveram dentro mim e que hoje considero tão valiosos.
Quero que você saiba que vai dar tudo certo. Os planos de Deus são exatamente como devem ser, e você sabe disso melhor que eu. Você é forte e está nas mãos de ótimos médicos. Vai ficar tudo bem.
Eu te amo muito (titia-linda-do-meu-coração-razão-do-meu-existir)
Um beijo,
Cintia Bala.