27 de agosto de 2010

Comunicação

Não lembro exatamente quando foi que cheguei a essa conclusão, mas para mim, mais da metade das coisas que a gente fala não são entendidas pelas pessoas que nos ouvem falar. 

Como se essa idéia já não fosse suficientemente perturbadora, direciono a atenção de vocês para uma outra questão: se as pessoas não entendem o certo, o que elas entendem? Pois é, o errado.

E fica pior ainda, porque as pessoas que nos entendem errado acham que estão nos entendendo certo e portanto, não fazem quaisquer questionamentos. Ou seja, nós nunca saberemos que nos entenderam errado a não ser que o assunto reapareça no futuro. 

Exemplo: 

Anos depois, numa festa qualquer, você encontra aquela pessoa com quem você teve uma boa porém breve conversa num passado longíquo. "Estranho", você pensa, "nunca mais conversei com aquela pessoa e nem lembro por quê". Horas mais tarde, cada vez mais nervoso pelo desperdício do espaço cerebral ocupado pela sua inútil memória, você resolve ir falar com a pessoa. Qual não é a sua surpresa quando:

- Nossa, mas quanto tempo! Por que a gente não se falou mais?!
- Ah, achei que você não gostava de mim.

A casa cai, né? Como assim, "eu não gostava de você"?! 

Então, foi um mal entendido*. De vez em quando nós temos oportunidade de resolvê-los, mas, e todos os outros que acontecem e a gente nem percebe? Todas as idéias erradas que as pessoas têm da gente pura e simplesmente por falta de comunicação?

O que pega é que isso acontece com muita frequência e só de observar diálogos alheios já dá para perceber. Inúmeras foram as vezes em que eu estava de coadjuvante numa conversa e, depois do básico silêncio-que-fica-quando-um-assunto-termina, eu disse algo como "é, mas o que o Fulano quis dizer não foi isso, foi isso, isso e isso", e enquanto o Fulano concordava comigo, todo mundo mudava de expressão "- Ahhh! Agora entendi!".

Às vezes o mal entendido é só uma interpretação errada de uma história, mas às vezes pode ser como no exemplo que eu dei em que a pessoa acha que você não gosta dela, ou a má impressão é especificamente sobre você como pessoa, sobre a sua personalidade. 

E ó, quem diz que "não se importa com a opinião dos outros", mente. Ninguém quer ser tachado de metido ou arrogante a troco de nada. Ninguém quer perder um futuro amigo porque se expressou mal numa primeira conversa. Eu duvidiodó que alguém goste de ser rotulado negativamente de graça. 

Aí inventaram a Internet, e olha, se tem uma coisa que piora a comunicação (pelo menos nesse sentido) em 937%, é a Internet. Quanto maior a sua rede social, mais gente vai te entender errado. 

Esse assunto realmente me intriga. Gostaria de conseguir evitar esse tipo de coisa, mas não acho que seja possível. Como faz?


*Não gosto das novas regras da Língua Portuguesa. Ponto final.

19 de agosto de 2010

Hábitos de sono

Muita gente que alega não gostar de acordar cedo diz que embora não lhes agrade, a rotina os acaba fazendo se acostumar e, por isso, acordam cedo até nos finais de semana. 

No meu caso, o horário de acordar para ir para a escola sempre foi em torno das sete da (madrugada) manhã. Ia dormir às onze da noite e ótimo, oito saudáveis e suficientes horas de sono. Aí eu entrei na faculdade, né. Para resumir a história, no último ano da graduação, se eu dormisse três horas por noite era muito. 

Pergunta: Com base nas afirmações do parágrafo acima, em qual dos dois períodos era simplesmente impossível acordar antes das duas da tarde nos finais de semana? Escolar ou universitário?

Em ambos, sem dúvida. Sempre achei inútil acordar cedo em dias que se pode dormir, além de ficar muito brava quando crianças chorantes ou o tiozinho do biju com aquela matraca proveniente dusinferno passavam na frente da minha casa, com o único e exclusivo objetivo de me acordar.

E assim, quando as pessoas descobrem sobre meus hábitos de sono, meldels - revolta, fúria e indignação transbordam suas veias. 

"- Nossa, credo! Assim você não aproveita o dia!", todas as vezes. 
"- Ah é? E o que você faz de domingo de manhã? Globo Rural?" - sim, eu defendo meus direitos soníferos.

Ao responder, os matutinos gaguejam e nunca me convencem. Não há motivo para acordar cedo num domingo. É chato, demasiadamente silencioso (afinal o barulho todo só acontece enquanto você tenta dormir) e ninguém mais no universo está acordado. 

Esses últimos tempos, não tenho tido necessidade alguma de acordar cedo. É bom, mas me faz perder a noção. Acordo às sete da noite e vou dormir às onze da manhã. De vez em quando saio na rua lá pelas oito da manhã sem nenhuma perspectiva de sono, só para me sentir um pouco mais normal, fingindo que acabei de acordar.

Independente disso, sábados, domingos e feriados foram feitos para serem dormidos. Apóio as saídas com os amigos e o conceito "aproveitar o dia", mas nove da manhã no final de semana simplesmente não faz parte da categoria dia

11 de agosto de 2010

Situações constrangedoras

Atravessar a rua na frente de um carro que parou exclusivamente para você passar.

O constrangimento começa na dúvida se o motorista vai parar ou não. Você já fica com aquela cara de idiota, meio que querendo andar logo, meio que querendo ser legal e esperar. Aí o motorista pára e faz aquele sinal desprezível de "vai, anda" com a mão. Só que nesse momento, por motivos adversos, acontece de você não estar olhando para o carro e portanto, não saber que já pode passar. 

Quando você volta a olhar para o carro, percebe que o motorista já está sinalizando que você pode ir há algum tempo e tenta andar rapidinho para compensar. Tropeça e, durante o movimento, lembra que seria gentil agradecer a paciência alheia. Não sabe se sorri, se manda um jóinha, se bate palma, se realiza um duplo twist carpado (...). Na dúvida, você faz um pouco de cada e finaliza sua performance de modo memorável: batendo de frente com outra pessoa.

Terminar uma conversa com outro dono de cachorro.

Você sai para passear com o cão e vê alguém fazendo a mesma coisa, caminhando em sua direção. O momento do encontro já é meio tenso, porque tanto você quanto a outra pessoa tentam evitar que um cachorro veja o outro, puxando-os discretamente. Não adianta. Enquanto a cheiração canina acontece, o diálogo começa e termina num período de trinta segundos - tempo suficiente para as coleiras virarem um nó digno do reconhecimento escoteiro mundial. Desfaz-se o nó e eternos minutos de silêncio decorrem, você e a outra pessoa de cabeça baixa, fingindo observar a interação canina com interesse. 

A situação fica insuportável e você começa a falar com o cachorro. "- Então tá, né Rex? Vamos para a casa, comer um biscoitinho?". Ele te ignora e, mentalmente, você tenta listar as vantagens de ter um cachorro, falhando miseravelmente. Mais uma vez, tenta chamar a atenção do bicho. "- Então vamos, Rex? Comer um biscoito?". A outra pessoa faz a mesma coisa. Desistindo lá pela quarta vez, ambos puxam os respectivos cachorros e momentos antes de sair correndo em busca da liberdade, você lembra que é boa pessoa, educada. Desviando o olhar entre o cão e dono, diz"- Hm, tchau, então. A gente se vê (daqui a cinco anos, quando eu sair para passear com o Rex de novo, em Júpiter)".

Não ser entendido por um atendente do McDonald's

A fila é grande. Você muda todos os ingredientes do Big Mac desde que se conhece por gente. Dois atendentes estão disponíveis: a gerente e um moleque proveniente direto dos confins do universo, na última fase do treinamento. Você faz os cálculos para descobrir com qual vai cair, e ufa, gerente. Sua vez chega e tanto um quanto outro estão ocupados. Ironias do destino, o cliente do moleque pega o troco mais rápido e você será atendido por ele. Ou seja, né - adeus conceito fast food. Você pede o básico e vai eliminando item por item indesejado, substituíndo-os por outras coisas. Menciona mais de uma vez que não quer queijo. Termina o monólogo gloriosamente com "e para beber, uma Sprite, por favor". Isso tudo contemplando os brinquedinhos do Mc Lanche Feliz. Percebendo um silêncio que não deveria estar acontecendo, você vira para o atendente. Vai ter que repetir o pedido. 

Enquanto isso, a fila aumenta e a pessoa que está sendo atendida pela gerente te olha com impaciência achando, assim como todo o resto da fila, que é você o causador da demora. Depois de repetir tudo que já tinha falado, inclusive que não quer queijo, você ainda não sente a segurança necessária por parte do atendente. Pede para ele confirmar o que você disse. Corrige todos os erros, paga e espera a comida chegar. O próximo da fila, bufando, começa a fazer o pedido dele. O seu finalmente chega e, antes de retirá-lo, você confere. 

Veio com queijo.

3 de agosto de 2010

O trem

Lá estava estava eu, depois de considerável tempo sem contato com transportes públicos em geral, sentada solitária e silenciosamente indo de um lugar da cidade para o outro via trem.

O trem pára, as portas se abrem e a louca entra. A primeira impressão foi magnífica já que aparentemente a mulher estava berrando consigo mesma. Logo vejo, porém, que estava usando fones e que segurava o celular na mão. Pelo menos estava gritando com alguém

Um minuto de insanidade telefonística depois, ela finalmente finalizou a ligação - mas não sem antes pronunciar cada letra de todos os xingamentos que eu já conhecia e de mais alguns que passei a conhecer depois do episódio. Com o trem em movimento, ela levantou e andou em direção às portas. Socou as portas com ambas as mãos. Manteve a cabeça baixa por dois segundos e se virou para mim. "- Pronto, morri", pensei. Acho que na verdade ela não tinha nem sequer notado a minha presença até aquele momento:

"- Desculpa, acabei de terminar com o meu namorado" - ela disse, sentando-se novamente.

Sem comentários. 

As portas se abriram de novo. Duas meninas entraram e sentaram-se logo atrás da louca, um pouco mais para frente de onde eu estava. Mal sabiam o que estava por vir. 

Eis que um cara apareceu. Do fundo do vagão, direto para as duas meninas que tinham acabado de chegar.

"- E aí? O que vocês vão fazer hoje, mais tarde?" - falou ele, com aquele ar de azaração.

Antes delas terem a chance de responder, a louca disse:

"- Sai fora, cara. Elas não querem conversar com você"
"- Como você sabe se elas nem responderam ainda?" - ele retrucou.

Momento de tensão.

"- Ah é?! Meninas, vocês estão interessadas nesse idiota?" - indagou a louca.
"- Ah, ele parece gente boa" - disseram as meninas, contrariando os ensinamentos maternos de não falar com estranhos mentalmente instáveis.
"- Desculpa então, casem-se, tenham filhos e sejam felizes. Argh" - disse a louca, contrariada.
"- Bem feito. Cuida da sua vida" - respondeu o cara, perdendo uma ótima oportunidade de ficar calado.

Nessa hora a louca simplesmente levantou, e indo em direção a ele, gritava:

"- O quê?! Não, vem aqui. Eu vou quebrar a sua cara. Quem você pensa que é?! Eu vou QUEBRAR A SUA CARA!"

Empurrou, chutou e estapeou o infeliz - que justamente quando estava começando a reagir para dar uns tapas na mulher, foi parado por uns cinco outro homens que surgiram do além.

Mas homi que é homi não deixa barato. Um dos cinco, depois de ter separado a louca do primeiro idiota, virou para ela e, obviamente depois de muita reflexão disse:

"- Vai sentar, sua vadia doida. Você é louca!"

E foi aí, caros leitores, que choveu canivete. Fogo por todos os lados, infestação de insetos, tsunamis e furacões:

"- O QUÊ? EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FALOU ISSO! EU SOU UMA VADIA LOUCA?! EU VOU MOSTRAR PRA VOCÊ QUEM É A LOUCA!"

A mulher foi para cima do cara furiosamente, estapeando e socando a cabeça dele, enquanto os outros amigos assistiam, hesitantes - meio que entre se proteger de eventuais golpes e tentar ajudar o amigo. 

Contei que ela era meio gorda e tava com a metade da bunda aparecendo? Lindas imagens, viu pessoal. Definição de classe e elegância, sem dúvida.

A história termina com os caras descendo do trem, ainda xingando e sendo xingados. Depois que todas as portas estavam fechadas, o que tinha apanhado mais não conseguiu evitar de fazer uma última memorável aparição, batendo no vidro da janela e falando o que eu imagino terem sido lindas palavras.

O silêncio estabelecido assim que o trem entrou em movimento foi provavelmente a parte mais constrangedora da coisa toda. A louca sentou, respirou fundo e virou-se para as meninas, que mal se mexeram durante o barraco:

"- Eu tenho dois filhos, sabe. Não costumo ser assim violenta".

Assim violenta, não. Só uns chutes esporádicos na cara de pessoas aleatórias.



Moral da história: Evite dizer que pessoas loucas são loucas.